
Sociedade
Almada tem um Bairro Circular onde os objetos ganham sete vidas
Nelson Rodrigues, Texto e Fotografia
Fazer da comunidade um exemplo de boas práticas de sustentabilidade é o objetivo do Bairro Circular, iniciativa que junta comerciantes e cidadãos de Almada à volta da reutilização, renovação e reciclagem de materiais. “Pequenas mudanças, grandes impactos!” tem sido o lema deste projeto que parte de um mercado municipal, mas ambiciona chegar a toda a cidade.
Ao colo do pai, o pequeno Duarte, de quatro anos, ouve atentamente uma história quando, de repente… trac! E logo depois… crac, trac! Após muitas décadas de uso, as pernas da cadeira onde estavam sentados não aguentaram mais e acabaram por partir. Deitá-la para o lixo estava fora de questão, tantas eram as memórias familiares que carregava. Mas onde encontrar alguém que a conseguisse arranjar? A resposta surgiu quase por acaso, num dia em que a mãe do Duarte foi ao Mercado Municipal das Torcatas e passou por uma montra que dizia “Oficina Ferramenteca - Aqui Almada é Circular”. Estava encontrada uma solução. Aquela cadeira “rabo de bacalhau” (nome que se deve ao seu formato) iria ter, pelo menos, mais uma vida.
“Calhou mesmo bem porque a cadeira já vem do avô do meu marido e não nos queríamos desfazer dela. Assim, perguntei aqui ao senhor Filipe [o monitor da oficina] se era possível arranjá-la e ele disse-me logo que sim, ainda por cima gratuitamente”, conta Miriam Santos à s_cities. Moradora em Almada, é uma das muitas pessoas a tirar partido do Bairro Circular, iniciativa da autarquia que procura motivar a comunidade para práticas de sustentabilidade e de economia circular. Para isso, preparou diversas ações e espaços demonstrativos, capazes de implementar no terreno esta medida do Roteiro para a Ação Circular 2030 do município.
Por ser uma iniciativa de base local “decidiu-se começar pelo Mercado das Torcatas, não só porque fica num edifício com estrutura circular, mas também porque já acolhia a Fruta Feia, todas as terças-feiras, além de ter algumas lojas vazias”, explica Dora Fonseca, da Divisão de Planeamento e Gestão Ambiental da Câmara Municipal de Almada. “Além disso, aplica-se na perfeição a este conceito de bairro que nos permite delimitar um raio de ação inicial, de um, dois quilómetros, ainda que esteja aberto a qualquer munícipe ou mesmo a quem é de fora do concelho”, acrescenta a técnica superior. “E a população agradece”, diz Miriam, porque “permite que as pessoas reutilizem e reaproveitem as coisas, em vez de as deitarem fora, ajudando a proteger o ambiente e a preparar a cidade para as próximas gerações”. No fundo, é a economia circular em ação.
Chegar com um mono e sair com um amigo
Inaugurada em maio deste ano, a Oficina Ferramenteca é um espaço comunitário e gratuito, dedicado à reparação e reutilização de objetos, desde peças de mobiliário a pequenos equipamentos domésticos elétricos, passando por calçado. Está aberta duas vezes por semana – terça-feira, das 15h às 21h; e sábado, das 9h às 13h – e, ela própria, é um exemplo de circularidade, porque “à exceção da iluminação do teto, quase tudo o resto aproveita materiais reutilizáveis e reciclados”, revela o monitor Filipe Oliveira. Assim acontece, por exemplo, com um curioso candeeiro de mesa, colocado ao fundo da sala, feito a partir de um garrafão de vidro e de um pedaço de madeira reaproveitado.
“Por aqui já passaram mil e um objetos para reparar, como esta cadeira azul, gavetas, varinhas mágicas ou aspiradores, e ainda aparecem pessoas para colar solas de sapatos ou afiar facas e tesouras” recorda o funcionário, acrescentando que também é possível pedir ferramentas emprestadas, “tal como se requisita um livro numa biblioteca”. Há ainda quem utilize o espaço para criar peças novas, como Judite Oliveira, que queria construir um suporte de malas parecido com o que tinha encontrado numa revista. “Para nós é uma maravilha ter aqui alguém que ajude, com jeito para estas coisas. Conheci a oficina durante um workshop, onde arranjei um tabuleiro que tinha encontrado no lixo e, venho cá desde então”, diz a moradora do Laranjeiro, referindo-se a uma de várias ações de capacitação que o espaço já recebeu. Por exemplo, além daquela, também houve um workshop de construção de brinquedos de madeira e um repair café (café conserto), enquanto para dezembro está agendado um encontro para transformação de monos e reciclagem de móveis.
Naquela tarde, Filipe Oliveira não tem mãos a medir. Ao mesmo tempo que arranja a cadeira azul de Miriam e aparafusa os pés da nova peça de Judite, tenta reparar uma pequena mesa de cabeceira que Margarida Cruz encontrou na rua. “Foi um espanto saber que em Almada há um sítio onde são capazes de ajudar a reparar peças como esta, que apesar de estar ao lado de um contentor, pode perfeitamente ser arranjada”, comenta esta administrativa do Laranjeiro, destacando também o ambiente amigável e quase familiar que lá encontra.
Raquel Cabrita, outra das utilizadoras mais assíduas, sublinha, precisamente, essa faceta menos óbvia, lembrando que, “aos poucos, a oficina acabou por ser um ponto de encontro entre moradores que têm coisas em comum, como conhecimento ou materiais que já não precisam, ajudando a criar dinâmicas muito engraçadas”. Dali saiu com novas amizades, mas também com “uns bancos antigos que antes tinham um aspeto muito feio, mas acabaram lindos” e ainda “um moinho de café que parecia condenado e, afinal, só precisava de uma nova ficha”. Mais uma vez, fez-se jus ao princípio da economia circular, que procura substituir o sistema linear de "extrair, produzir, usar e descartar" por um ciclo mais sustentável, onde os materiais são mantidos em uso durante o maior tempo possível, evitando o desperdício e gerando mais valor e menos resíduos.
Vestir o conceito de circularidade
A dois passos da Oficina Ferramenteca fica a Loja Circular, que se mudou para o Mercado das Torcatas a 10 de maio deste ano, dia em que a autarquia também organizou naquele local o Mercado Circular de Almada. Aberta de segunda a sexta-feira, das 9h00 às 18h00, e ao sábado, das 9h00 às 13h00, procura ajudar a reduzir a produção de resíduos no concelho através da reutilização de diversos bens e objetos. Por lá encontra-se muita roupa em segunda mão, mas também calçado, acessórios de moda, brinquedos e artigos para bebé. Ao longo do ano, também recebeu diversas atividades gratuitas, como formações de upcycling de moda (técnica que dá novos usos a tecidos e peças de roupa) ou que ensinaram a usar uma máquina de costura.
Sempre que alguém espreita à porta, para tentar perceber que tipo de loja é, as funcionárias convidam a entrar, explicam o conceito e lembram que todas as peças são lavadas e higienizadas antes de estarem expostas. Há quem passe de propósito para doar e para receber, mas também para as duas coisas, como Miriam Santos, que foi deixar roupa e, em troca, levantou alguns brinquedos para o filho Duarte. “É uma grande vantagem termos aqui tudo próximo. Assim, aproveitei o dia em que vim à Fruta Feia e passei logo pela oficina e pela loja”, comenta a gestora de produto. Uma ideia partilhada por Carla Pina, outra utilizadora dos dois espaços, que, de um lado, já levou “muita coisa boa e bonita, como os sapatos que trago calçados” e, do outro, arranjou “dois candeeiros que ficaram a funcionar na perfeição”.
Nesta loja não entra dinheiro, já que a troca é feita exclusivamente através de um sistema de pontos, como revela Ana Cortiçada, do Departamento de Higiene Urbana da Câmara Municipal de Almada. “As pessoas trazem bens que estejam em bom estado e recebem um determinado número de pontos, estipulados por uma tabela que atribui um valor para cada tipo de produto. Com eles, podem trocar por outras coisas que queiram”, explica a técnica superior, antes de ajudar Carla Pina a fazer contas aos pontos que amealhou. “Já tem 484? Então imagine: como umas calças valem quatro pontos, com o que juntou podia levar mais de uma centena de pares”, adianta, entre sorrisos.
Em conversa com a s_cities, revela ainda que a maioria das visitantes são mulheres (o mesmo acontece na Oficina Ferramenteca) e procura afastar eventuais estigmas negativos, sublinhando que a loja não é apenas para pessoas mais carenciadas. “Este é mesmo um espaço para todos. Quem quiser, até pode levar roupa só para ir a uma festa e depois trocá-la no dia seguinte, promovendo uma espécie de circularidade infinita, porque, aqui, estas peças ganham muitas vidas”, conclui.
Ó freguesa, vai um raminho de sustentabilidade?
A ideia inicial do Bairro Circular passava, sobretudo, pelas ações e espaços demonstrativos da câmara municipal, mas em boa hora se decidiu envolver também os comerciantes, pois ajudaram a criar um verdadeiro projeto de comunidade. Depois de uma primeira fase de auditoria e auscultação, juntaram-se à iniciativa cerca de 40 lojistas, que receberam um selo municipal de reconhecimento e um documento com sugestões de boas práticas. A maioria é da área da restauração, mas também há lojas de vestuário, frutarias e mercearias, farmácias, uma oficina automóvel, uma livraria ou uma loja de venda e reparação de eletrodomésticos, entre outras.
Todas fazem questão de aplicar as dicas e conselhos que receberam, como nos garantem na oficina automóvel que funciona mesmo em frente ao Mercado das Torcatas. “Até podem ser coisas simples, mas ajudam a fazer diferença, por isso passámos a ter mais atenção à reciclagem e aos óleos, por exemplo. Queremos mesmo fazer parte de uma geração que poupa e evita os desperdícios ao máximo”, diz a funcionária Carla Zambujo. Umas ruas abaixo, João Lopes, proprietário da Telmada, reforça a mesma ideia, lembrando que aquela loja de venda e reparação de eletrodomésticos sempre promoveu a separação de resíduos e a reutilização de cabos informáticos, por exemplo. Ao mesmo procura passar a mensagem aos clientes, incentivando-os a aproveitarem ao máximo o tempo de vida dos aparelhos. “Muitas vezes, querem logo deitá-los fora, mas nós dizemos que não perdem nada em fazer uma avaliação e, se for possível, faz-se a reparação, o que ajuda a carteira e o ambiente”, comenta, junto a um amontoado de eletrodomésticos, alguns à espera de arranjo, outro a caminho da reciclagem.
Na zona das Torcatas, em Almada, a mudança de comportamentos já está em marcha e, agora, procura ganhar mais impacto. Para já, o Bairro Circular quer atrair mais comerciantes e moradores, mas também escolas, associações e famílias inteiras, para que este movimento abranja toda a comunidade. Depois, a ambição é chegar a outros bairros e, quem sabe, a toda a cidade e concelho. Porque, afinal, como diz o lema da iniciativa, pequenas mudanças podem causar grandes impactos.