É Uma Casa: O projeto que faz da habitação um recomeço de vida

Inclusão

É Uma Casa: O projeto que faz da habitação um recomeço de vida

Dar uma casa a todas as pessoas sem-abrigo não é uma utopia, mas um sonho concretizável, defende o projeto É Uma Casa, da associação CRESCER. Inspirado no modelo internacional Housing First, tem mostrado que, em Portugal, a habitação também pode ser o primeiro passo para segundas oportunidades. Dois inquilinos contam à s_cities como é começar o futuro com um molho de chaves na mão.

Há muito que Elda Coimbra tinha deixado de acreditar nas pessoas. Nos outros e até em si mesma. Nem podia ser de outra forma, garante, tão duros foram os 15 anos em que viveu na rua, escondida numa “espécie de selva, onde se está sempre à espera de ser atacado pelo leão”. Ao início ainda resistiu, “porque, a certa altura, é preciso passar a ser o crocodilo que ataca o leão”, mas acabou por deixar de lutar, enleada numa teia que a levou à toxicodependência, ao alcoolismo, à cadeia e à prostituição. “Foi quando percebi que na rua não és nada. Não és um ser humano, és rejeitada, és um zero, és um bicho. Comes do caixote do lixo, pedes esmola, levas tareia de todos os lados e és atirada para um canto”, conta-nos, admitindo que, pelo caminho, tentou o suicídio várias vezes.

“Eu desisti, simplesmente. Mas a CRESCER acreditou sempre em mim. Foram-me visitar à prisão e ao hospital, arranjaram-me médico de família e tentaram-me ajudar em todos os momentos, mesmo quando eu fugia das técnicas e as tratava mal, porque era um bicho que não falava com ninguém”, confessa. Aos poucos, foi ganhando confiança nas equipas da associação, a ponto de começar a encontrar-se com elas mais regularmente e aceitar ter encontros com uma psicóloga. Até que um dia a levaram a Belém, em Lisboa, e passaram-lhe umas chaves para a mão. “O que é isto?”, perguntou, intrigada. “São as chaves da tua casa, entra”, responderam-lhe entre sorrisos. “Ao início pensei que estavam a gozar comigo, mas depois foi uma emoção muito grande. E a verdade é que naquele momento nasci de novo para a vida”, recorda mais de uma década depois.

Elda Coimbra, de 55 anos, está entre as quase 200 pessoas em situação de sem-abrigo ou de vulnerabilidade que já beneficiaram do projeto É Uma Casa. Lançado em Lisboa pela associação CRESCER, segue a abordagem do Housing First, segundo a qual a melhor forma de tirar alguém da rua é dar-lhe uma casa em primeiro lugar e só depois procurar a reabilitação pessoal e social. Na prática, este conceito surgido em Nova Iorque defende que a habitação acaba por ser o ponto de partida para essa recuperação, ajudando muitas vezes a resolver dependências ou problemas de saúde mental e evitando que as pessoas mais vulneráveis estejam sempre sujeitas a soluções temporárias.

Como explica Américo Nave, psicólogo clínico e diretor da CRESCER, “a partir do momento em que recebem uma casa permanente, as pessoas passam a ter um espaço só seu, seguro e digno, ficando inseridas num contexto de comunidade, o que tem sido muito importante. É por isso que a primeira coisa que fazemos passa por inscrevê-las no centro de saúde da área de residência, porque a utilização de respostas da comunidade promove a inclusão e até a participação”. O responsável revela que, com este modelo, não há pré-julgamentos ou juízos de valor, embora os beneficiários tenham de cumprir determinadas regras, como aceitar visitas regulares dos técnicos ou pagar 30% do rendimento mensal, caso exista. E acrescenta que nunca “houve ninguém que não quisesse sair da rua, enquanto 90% dos participantes não voltaram à situação de sem-abrigo”.

Para o cofundador desta associação de intervenção comunitária, a ambição de tirar da rua todas as pessoas em situação de sem-abrigo no nosso país (13.128, de acordo com os últimos dados) é tudo menos uma utopia. Pelas contas da associação, que deram origem ao manifesto “Uma casa para todos”, o Estado poderia acabar com este drama social gastando cerca de 289 milhões de euros por ano, ou seja, menos de 0,1% do PIB português. “No fundo, não se trata de uma questão de inevitabilidade, mas de investimento, ou seja, o que falta é mesmo vontade política”, acusa, defendendo que as políticas públicas não vão além de respostas paliativas, como os abrigos temporários. A esta realidade acrescem ainda os problemas da falta de habitação e da especulação, já que a CRESCER encontra as casas no mercado imobiliário normal, como sites, agências ou proprietários particulares.

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Durante os 12 anos de projeto em Portugal foram atribuídas cerca de 160 habitações nas cidades de Lisboa, Amadora e Loures, habitadas por pessoas com os mais diversos percursos de vida. Entre elas está, por exemplo, “um ex-professor universitário de Oxford, o que mostra bem o quão ténue é a linha entre ficar ou não em situação de sem-abrigo”, reflete o psicólogo. Cada caso é um caso, acrescenta, revelando que tanto há quem consiga arranjar trabalho e ficar financeiramente autónomo, como quem tenha mais dificuldade porque “muitas vezes são pessoas com 70 ou mais anos, ainda para mais com doenças graves do foro psicológico, neurológico ou físico”.

Mesmo após terem uma casa, alguns inquilinos continuam a dormir no chão ou atrás de uma porta, tal é o grau de trauma e de hipervigilância em que se encontram. Foi o que aconteceu com Elsa Coimbra, que admite ter precisado de bastante tempo para se adaptar à nova condição. “A transição foi difícil. Nos primeiros dias vinha cá tomar banho, mas continuava a dormir e a consumir na rua. Depois dormi no chão durante muitos anos, mais tarde no sofá e só aos poucos comecei a conseguir ficar na minha cama”, lembra a moradora daquele T1 impecavelmente arrumado.

Hoje, Elda diz que o projeto da CRESCER mudou-lhe a vida para sempre, porque “foi liberdade, dignidade e esperança”, além de ter sido fundamental para recuperar não só a autoestima, mas também a relação com os filhos. “De tal forma que, passado um ano e tal, já tinha começado a largar os vícios. Porque comecei a sentir-me mais segura, a querer andar mais limpinha, a comer bem e tentar recuperar os meus filhos”, revela, enquanto olha para as fotos que tem numa estante. Também por isso, sublinha, “foi como ter ganho várias vezes o Euromilhões”.

Enquanto vivia ao relento, nunca deixou de pensar em quem, como ela, “sofreu ou sofre horrores na rua” e, por isso, decidiu concretizar um sonho antigo. “Quando ainda não tinha casa, pensava muitas vezes 'meu Deus, eu vou morrer na rua', mas se algum dia conseguir sair daqui, tenho de ajudar as outras pessoas”, recorda. Dito e feito. Em conjunto com mais sete mulheres, fundou a associação Somos, da qual é presidente, que apoia mulheres em situação de sem-abrigo, alertando para problemas como a falta de segurança. Mais uma vez, a CRESCER incentivou e apoiou todo o processo, disponibilizando um espaço para o grupo fazer reuniões e guardar os kits de higiene feminina que distribui pela capital.

Por toda a cidade Elda Coimbra encontra casos que a impressionam e pessoas aparentemente impotentes face a “uma vida de rua ingrata, como um lodo do qual é muito difícil sair”. “Mas não impossível!”, reafirma, lembrando o seu caso pessoal. Afinal, “depois de tudo o que passei, consegui encontrar o meu castelo. Aqui, sinto-me protegida”, conclui.

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Ganhar asas debaixo de um teto

O que pensa e faz uma criança quando, com apenas 10 anos, perde toda a família direta e deixa de ter um sítio para viver? Fernando Casimiro não teve dúvidas e preferiu ficar na rua a ser institucionalizado. Desde então, já passou mais de meio século, mas as memórias daquela fase de infância continuam bem vivas e indeléveis, desde as mortes trágicas do pai, da avó e do avô, num espaço de três meses, à “barraquinha de madeira” onde viviam em Évora, sem esquecer o dia em que fugiu da Casa do Gaiato de Setúbal, farto da “violência e das coisas atrozes que lá faziam às crianças”.

“Era ainda um miúdo, mas decidi sujeitar-me ao que a vida tinha para mim e ir andando por aí fora. Ainda estive por Setúbal uns dois anos, mas depois vim para Lisboa, sem conhecer nada nem ninguém, e juntei-me a outras crianças que andavam ao abandono pela zona do Rossio”, recorda. “Formávamos uma espécie de gangue, sempre a fugir à polícia, a roubar traficantes de droga e a levar tareias a torto e a direito”, admite, apesar de estar convicto que qualquer coisa seria preferível a um internamento forçado. Ainda assim, com a adolescência tornou-se cada vez mais rebelde e também ele começou a traficar e a consumir drogas, “todas as que havia”.

Mais tarde, acabou por voltar a Évora e chegou a formar família, mas o vício levou-o de volta “à podridão do Casal Ventoso”, em Lisboa, onde vivia debaixo da ponte “sem dignidade e com porcaria por todos os lados”. Acabou na prisão uns anos depois, “uma espécie de mal que veio por bem”, porque foi lá que deixou as drogas e ganhou o gosto pelas letras, passando a escrever para o jornal daquela instituição prisional. Já em liberdade, publicou um livro para contar a sua história de superação, intitulado “Provavelmente venci”, e quando regressou a Lisboa andou de quarto em quarto, mas também viveu numa tenda ao lado do Mercado 31 de Janeiro.

Toda esta instabilidade só terminou com uma morada certa e o apoio permanente da CRESCER, que lhe arranjou uma habitação só para ele, primeiro no Bairro Alto, depois na Graça e agora em Campolide. “Foi um sonho tremendo, porque nunca imaginei que alguém me pudesse proporcionar uma casa - mas mesma casa! -, não uma garagem ou barraca. E a verdade é que isso acabou por ser fundamental para a minha vida”, garante, elogiando o modelo do Housing First. “Para fazer alguma coisa da vida é preciso ter estabilidade e foi graças a ela que escrevi mais dois livros - “Isto é Poesia” e “Qual animal? -, ou seja, foi debaixo de um teto que os meus sonhos ganharam asas”, comenta, apontando para as obras, uma das atuais fontes de sustento.

Assim se cumpre o propósito do projeto É Uma Casa, afirma Américo Nave, para quem o sucesso da iniciativa passa, em grande medida, pelo facto de procurar respostas individuais e personalizadas para cada inquilino. Ao mesmo tempo, procura fortalecer o sentimento de pertença a um lugar e a uma comunidade, como aconteceu com Fernando Casimiro, que já se sente perfeitamente inserido no bairro onde vive. O cofundador da associação faz ainda questão de lembrar que não se trata de nenhum programa de política de habitação, que “dá uma casa só por dar uma casa”, mas de um projeto composto por equipas especializadas que “ajudam as pessoas a sair da condição de sem-abrigo com a ferramenta de uma casa”. Ou seja, o projeto não se esgota no momento da entrega as chaves, longe disso.

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Mesmo depois de terem uma habitação, todos os beneficiários são apoiados em permanência por um técnico, inserido uma equipa multidisciplinar, sempre disponível para o que for preciso. É o caso de Gonçalo Duarte, a trabalhar há um ano no projeto, mas já com muitas histórias parta contar. “Marcou-me especialmente um senhor que chegou a estar muito mal, a ponto de questionarmos se conseguiria sobreviver, devido aos consumos exagerados de álcool. Nessa altura era incapaz de dar cinco passos sem auxílio, mas, com o tempo, passou a beber moderadamente e agora sobe as colinas de Lisboa sem ter de parar uma vez”, conta à s_cities. Em poucos meses, também começou a tentar estabelecer algum contacto com a família, “algo que não acontecia há muitos anos”, além de ter passado a ter “metas de vidas para o futuro”. “Ele conta com o meu apoio e confia em mim para alcançar esses objetivos, por isso, é impossível ficar indiferente a uma pessoa que ajudamos a crescer e a concretizar novos sonhos”, diz o gestor de caso.

Com apenas 27 anos, garante que também ele cresce todos os dias, “ao ver e fazer parte de transformações avassaladoras, de pessoas que ganham coragem para mudar as vidas, restabelecem relações com os outros, ganham significado e propósito e, acima de tudo, mudam para melhor a imagem que têm delas mesmas”. É por isso que o projeto “sempre cultivou uma relação de proximidade e cumplicidade muito grande”, explica Américo Nave, o que só se consegue quando “o mesmo gestor acompanha uma pessoa durante muito tempo”.

Fernando Casimiro reconhece que o papel das equipas da CRESCER é importante, “não só porque pelo apoio que dão, mas também porque ajudam a garantir que cada um cuida e estima a casa como se fosse sua”. Afinal, “ter um teto e um sítio para ficar deve ser um orgulho e um motivo de esperança”, sublinha, lembrando os principais planos que tem para o futuro: “continuar a viver na minha casinha, escrever, publicar mais livros e… ser feliz”.

E poderão todos os sem-abrigo alcançar o sonho de ter uma casa? Américo Nave não tem dúvidas na resposta: “acredito verdadeiramente que é possível haver cidades sem pessoas nessa situação. Não se trata de uma mera frase política ou diplomática, mas de um objetivo concreto, em prol de lugares mais justos. Porque não queremos cidades cheias de unicórnios, mas que, depois, continuam com pessoas a viver nas ruas”.

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Publicado em 17 Dezembro, 2025 - 08:55
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