Projeto pedagógico leva Natal mais sustentável às escolas

Sociedade

Projeto pedagógico leva Natal mais sustentável às escolas

Alertar para o impacto do excesso consumista na época natalícia é o objetivo de uma iniciativa de educação ambiental que utiliza literatura infantil, música e apresentações pedagógicas para sensibilizar milhares de alunos por todo o país. Figura central deste projeto, o Pai Natal Verde salta das páginas de um livro com a missão de transformar o imaginário das crianças em ação.

A curiosa e expressiva Lia Loureiro, de seis anos, nunca tinha ouvido falar em pais natais verdes. “Vermelhos, sim, até já vi alguns no centro comercial, mas com esta cor é mesmo a primeira vez, até parece que é do Sporting”, diz-nos a aluna do 1.º C da Escola Básica Elias Garcia, na Sobreda, em Almada. Meio intrigada, faz questão de se sentar na primeira fila do anfiteatro para desvendar este pequeno mistério que salta à vista no livro “Cartas ao Pai Natal Verde”. A obra, escrita por Narciso Moreira e editada pela Betweien, é o ponto de partida de um projeto pedagógico sobre sustentabilidade na época natalícia que, ao longo do mês de dezembro, fez apresentações em cerca de 100 escolas de norte a sul do país.

A iniciativa junta leituras teatrais do livro, música e atividades pedagógicas, tudo ao vivo, desafiando os alunos do pré-escolar e do ensino básico a interagir, dançar, fazer algumas perguntas e responder a outras. Logo no início é explicado que este Pai Natal, afinal, nem liga muito a futebóis, mas veste-se de verde porque é amigo do planeta e gosta de dar conselhos que ajudam o ambiente. “Então está explicado, faz sentido!”, irá dizer-nos a pequena Lia no final da sessão, lembrando que “é fixe ter um Pai Natal vermelho que dá prendas e outro verde que ajuda as árvores”. “Cá para mim, eu gosto dos dois”, rematou a conversa com uma gargalhada.

A obra, lançada este mês, dá continuidade a outro livro – “O Pai Natal Verde” – que nos últimos 10 anos cumpriu o mesmo propósito, mas centrou-se, sobretudo, nas temáticas da reciclagem e da redução da pegada ambiental. “Após uma década e mais de 50 mil exemplares vendidos, quisemos reforçar a mensagem com outra publicação que chamasse a atenção para o excesso consumista do Natal. Agora, lembramos às crianças que tanto papel, tanto plástico e tantos brinquedos têm impacto no ambiente e que elas também podem ajudar de muitas formas, por exemplo, reaproveitando ou oferecendo os que já não usam”, explica o autor Narciso Moreira.

O também diretor-geral da Betweien (empresa dedicada à implementação de projetos educativos) revela que, fazendo jus ao título do livro, os pequenos leitores também foram desafiados a escrever uma carta ao Pai Natal Verde. “Pedimos-lhe que nos contem o que desejam para o Natal e para o planeta e recebemos mensagens muito, mas mesmo muito bonitas e emocionantes. Ao contrário do que se poderia esperar, nem todas querem bens materiais, mas só pedem para estar próximas da família, dos amigos e das pessoas que gostam”, recorda Narciso Moreira. Ao mesmo tempo, também contam qual foi a ação que mais fizeram para ajudar o ambiente e “a maioria já mostra muito cuidado com o tema, revelando fazer reciclagem e apanhar o lixo das ruas, por exemplo”.

Imagem
Imagem

Prendalândia procura duendes da sustentabilidade

Todos os anos, os portugueses desperdiçam na época natalícia mais de 10 milhões de rolos de papel de embrulho e deitam para o lixo mais de mil toneladas de pinheiros. Números ainda demasiado grandes para a matemática dos alunos do primeiro ciclo da EB Elias Garcia, na Sobreda. Mas isso não significa que não comecem a aperceber-se do excesso consumista da época, um dos principais alertas das animadoras da Betweien durante a apresentação nesta escola. Para isso, contam à plateia a nova história do Pai Natal Verde, que, destra vez, convida três crianças a viajar até à “Prendalândia” com a tarefa de serem “duendes da sustentabilidade”.

No final da sessão, a mensagem parece ter ficado presente na maioria dos alunos, como o Sebastião Inácio, de sete anos, que sugere “passarmos a embrulhar mais prendas com folhas de revistas e de jornais para cuidarmos do ambiente”. Já a colega Júlia Cruz, de seis anos, lembra que, “nem é preciso recebermos tantos presentes, porque ficamos contentes na mesma e ajudamos a natureza”. Assim se educa para a sustentabilidade.

A escola também acolheu a iniciativa de braços abertos, lembrando que é uma forma original e eficaz de complementar algumas matérias escolares. “Cada vez mais os conteúdos programáticos envolvem os problemas ambientais e as crianças conseguem nestas sessões fazer uma associação aos temas trabalhados na sala”, diz a professora Vanda Jorge, enquanto o docente Jorge Cardoso comenta que “estas sessões permitem que as crianças compreendam o impacto dos seus hábitos de consumo no planeta, como o desperdício de recursos, a produção de lixo e a poluição”. Uma opinião partilhada por Matina Frias, da equipa da Eco-Escolas, que destaca o entusiasmo das turmas. “Os alunos mostraram-se atentos e participativos, adoraram a música e a dança. Alguns comentaram que iam embrulhar os presentes com papel reutilizado e explicar em casa o que aprenderam na apresentação. Além disso, a atividade reforçou, de forma significativa, o trabalho que já vinha a ser desenvolvido no âmbito do Eco-Escolas”, diz a professora.

Uma vez transmitida a mensagem a alunos e professores, é preciso que cheguem também aos pais, a outros familiares e amigos, reforça Narciso Moreira. “No fundo, queremos que os nossos livros possam sensibilizar o maior número de pessoas, não apenas crianças, para a necessidade de sermos mais amigos do ambiente neste período específico do Natal em que há tanto consumismo”, lembra o autor. Porque, afinal, “pequenos gestos como este fazem a diferença e cuidar do planeta também é um presente precioso”.

Imagem
Imagem

Seguir o exemplo das estrelas da música

“Pai Natal Verde e “Cartas ao Pai Natal Verde” são apenas dois de inúmeros projetos educacionais e sociais desenvolvidos pela Betweien junto da comunidade escolar. A literatura e a música também se cruzam, por exemplo, na iniciativa “O Planeta Limpo de Filipe Pinto”, assente em três livros dedicados à sustentabilidade ambiental, com especial atenção para os temas da reciclagem, da água e da energia. “Lançados em parceria com o jovem músico, esses livros já venderam em 12 anos mais de 100 mil exemplares e chegaram a dezenas e dezenas de milhares de crianças, ou seja, foram uma espécie de abre-latas pedagógico que introduziu conteúdos em disciplinas escolares, como estudo do meio”, revela Narciso Moreira. Quem lê e ouve não costuma esquecer, acrescenta o responsável, lembrando ser comum encontrar jovens adultos que “ainda hoje dizem ter ficado marcados e sensibilizados com a mensagem recebida numa determinada ação, quando ainda eram crianças, há vários anos”.

Uma fórmula semelhante é utilizada no projeto “STOP Discriminação”, criado a partir do livro com o mesmo nome, que envolve o vocalista do grupo HMB, Héber Marques. Este aborda temas como a discriminação étnica, o diálogo intercultural e o discurso de ódio e deu origem a vários temas originais e a uma peça de teatro sobre a vida dos migrantes. Por sua vez, a cantora Cláudia Pascoal juntou-se ao “Login”, que procura sensibilizar os mais jovens para os riscos e potencialidades das redes sociais, enquanto Diogo Piçarra lançou o livro “Diogo Piçarra em Pessoa”, onde o músico reinventa e reconstrói a obra de Fernando Pessoa. Ao mesmo tempo, é uma forma de atrair o interesse dos alunos do ensino secundário para a escrita, já que o livro também desafia os leitores a criarem uma versão própria de poemas inspirados na obra pessoana. Carlão, Áurea, Rita Redshoes e Samuel Úria são outros músicos e cantores envolvidos em ações educacionais da empresa nos últimos anos.

“Temos muitos projetos diferentes, com os mais variados objetivos e protagonistas, em que procuramos conciliar as atividades pedagógicas com a música, as performances teatrais e a escrita, porque são excelentes meios de sensibilizar os jovens e as crianças para os temas que lhes interessam, consciencializando-os para alguns comportamentos que devem adotar”, afirma Narciso Moreira. Nada melhor que recorrer às artes para chegar até eles, “mesmo que seja necessário utilizar diferentes estratégias e interlocutores, consoante o público em questão”. No Natal, o protagonista escolhido anda sempre vestido de verde e traz no saco muitos conselhos sustentáveis para deixar no sapatinho.

Imagem
Imagem
Publicado em 22 Dezembro, 2025 - 08:27
Arte
Crianças
Sociedade
Sustentabilidade