
Natureza
Brincar com os sentidos para ganhar perceção da natureza
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Rodrigo de Souza, Fotografia
Explorar a paisagem através das sensações é o desafio que a Fundação Gulbenkian lança às crianças na oficina “Mapas Sensoriais do Jardim”. Através de um percurso com vários jogos, aprendem e interpretam o mundo à volta, enquanto vão desenhando o que descobrem pelo caminho. Trocados por miúdos, todos os sentidos vão dar à perceção.
Sentado com as pernas “à chinês” numa roda cheia de crianças, Tomás Miguel, de seis anos, arregala os olhos e estica o pescoço à procura da resposta certa para a primeira pergunta lançada ao grupo: “O que se vê, aqui à volta, no jardim da Gulbenkian?” “Vejo… muitas árvores verdes?!”, responde, ainda meio receoso. O aceno afirmativo da monitora abre-lhe um sorriso no rosto e traz confiança aos colegas, que logo disparam mais umas quantas ideias: “O sol! Um pato! A relva onde estamos sentados!”. Missão cumprida. A turma do Jardim Escola João de Deus dos Olivais, em Lisboa, ultrapassa com sucesso o jogo “Vejo, Vejo”, dedicado à visão, que marca o início da oficina “Mapas Sensoriais do Jardim”.
Trata-se de uma atividade da programação educativa da Gulbenkian, destinada a escolas do primeiro e segundo ciclos, que chama professores e alunos para fora da sala de aula, desafiando-os a descobrir com os sentidos um dos principais espaços verdes da capital. O objetivo é que o façam de forma imersiva, em movimento e com o corpo todo à escuta. “Nesta oficina, que dura cerca de duas horas, damos um passeio circular pelo jardim, observando as diferentes paisagens, mas sentindo-as. Em cada paragem do percurso fazemos um pequeno exercício que promove um sentido específico e leva-nos a percecionar o que está para lá do óbvio”, diz a orientadora e criadora da oficina, Leonor Pêgo. A atividade, iniciada no ano passado, tem revelado que as crianças percecionam o jardim de forma muito própria, bem diferente dos adultos, porque “como não têm preconceitos nem ideias feitas, chegam com muita disponibilidade emocional e muita curiosidade para a descoberta”, revela Paula Côrte-Real, coordenadora do Programa Educativo do Jardim. “Além disso, os raciocínios que fazem são puros, mas muito inteligentes, porque utilizam uma perceção que ainda não é contaminada por aquilo que os adultos lhes dizem”, acrescenta a responsável.
Ao longo do percurso, os participantes vão desenhando numa folha aquilo que encontram e descobrem a cada momento, criando um registo gráfico pessoal, ou seja, o seu próprio mapa sensorial do jardim. No desenho do Tomás Miguel, por exemplo, não podiam faltar as árvores que viu logo no início do passeio, um “lago secreto” onde foram à procura de rãs e uma “ponte rodeada de plantas”, bem como um pássaro que identificou no segundo exercício da oficina, este dedicado à audição da paisagem. Aqui, o mais difícil foi conseguir que todas as crianças fechassem os olhos durante um minuto inteiro, para poder escutar com mais atenção, mas assim que o fizeram já apontaram mil e um sons, como “o coração a bater”, “uma planta a mexer” ou um “pato a ralhar”, além de outros saídos da imaginação. “Esses, costumam ser os mais divertidos e inesperados. Há uns tempos, uma criança até me disse que conseguia ouvir a avó a lavar a loiça em casa”, recorda Leonor Pêgo.
Plantas fofinhas e bigodes de caruma
Depois de uma pausa para aprender os hábitos de alguns animais que habitam o jardim da Gulbenkian, o grupo segue numa corrida desenfreada a caminho do terceiro momento: o tato. Neste exercício, a monitora costuma vendar os olhos dos miúdos, para apurarem ainda mais este sentido, mas hoje optou por não o fazer, tal era a ansiedade em descobrir o que a pele e as mãos podem revelar. Primeiro, experimentam a textura do alecrim, depois da olaia, uma planta com folhas em forma de “O” e, por fim, da sálvia, com as suas folhas rugosas que despertam a maior das curiosidades e, claro, têm direito a lugar de destaque no mapa do Tomás Miguel. “Que fofinhas, parecem um peluche”, disse uma das crianças enquanto fazia “festinhas” com a ponta dos dedos. “Não se esqueçam que é só para tocar, nunca para colher ou arrancar”, repetiam Leonor e as professoras, consciencializando os alunos para a necessidade de respeitar a natureza e o meio ambiente.
A oficina aproxima-se do fim, mas ainda há tempo para descobrir mais dois sentidos, o olfato e o paladar, à sombra de frondosos pinheiros. O lugar não foi escolhido por acaso, já que o chão está coberto de caruma, que a monitora convida a cheirar profundamente, numa tentativa de desfiar memórias antigas ou de outros lugares. “Faz-me lembrar a praia”, diz um aluno, “tem o cheio do sítio onde eu costumo jogar à bola”, refere outro, enquanto Tomás Miguel vai rabiscando no seu mapa. Logo depois, o desafio passa por colocar um monte de caruma entre o lábio superior e o nariz, aumentando a perceção do aroma, mas fazendo lembrar também um bigode farfalhudo e bem cheiroso que, reação imediata, deixa todos às gargalhadas.
Para terminar, uma surpresa final, guardada num pequeno frasco cheio de pinhões. Uma a uma, cada criança prova o sabor deste fruto seco, algumas pela primeira vez, descobrindo que “dentro da boca também há sentidos”, como comenta a pequena Maria Luísa, de seis anos. “Esta foi a minha parte favorita, porque adoro pinhões”, diz a amiga Maria Inês. Ambas gostaram tanto da atividade que, quando forem grandes, querem trabalhar no jardim da Gulbenkian, “uma a tratar dos animais e a outra das plantas”.
Expetativa e perceção
A oficina “Mapas Sensoriais do Jardim” volta a estar disponível para escolas a partir de março, mediante inscrição prévia, tal como muitas outras atividades que integram o Programa Educativo do Jardim Gulbenkian, dirigidas a diferentes níveis de ensino. Grande parte também faz dos sentidos e da perceção um denominador comum, casos da oficina “Luz e Sombra – Impressões botânicas”, que desafia a imprimir fotografias de plantas usando as suas propriedades fitoquímicas, ou do jogo “50 tesouros para procurar no Jardim Gulbenkian”, dedicado à identificação de elementos naturais que vivem neste recanto verde de Lisboa.
Mas também não faltam propostas destinadas às famílias, “para juntar pais e filhos à volta de momentos lúdicos e de aprendizagem, acabando por ser muito enriquecedores, não só para as crianças, mas também para os adultos”, sublinha Paula Côrte-Real. A responsável pela programação dá como exemplo a oficina “Fósseis no Jardim”, que utiliza “matéria natural, desde pauzinhos a folhas, e com a ajuda de barro e gesso transforma-os numa coisa muito parecia com fósseis, mas feita no presente”.
Para a mediadora Leonor Pêgo, que tanto recebe escolas como famílias, é interessante observar o interesse das crianças, “curiosas por natureza”, mas também o entusiasmo de muitos pais, ávidos por voltar à infância. A maior diferença está, precisamente, na expetativa de uns e outros, porque “enquanto os miúdos estão sempre abertos a tudo, os mais velhos trazem ideias pré-concebidas que resultam, frequentemente, numa perceção de surpresa”. Também por isso, “há adultos que já conhecem muito bem este espaço verde, mas depois de participarem numa atividade com os filhos, acabam por passar a vê-lo de outra forma, até mais deslumbrada”, recorda. Muitos caminhos podem ter os mapas sensoriais do Jardim da Gulbenkian.