Cidades de todo o mundo, uni-vos

Opinião

Cidades de todo o mundo, uni-vos

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Ana Fontoura Gouveia Texto
Mariana, a miserável, Ilustração 

Nasci em maio de 1982. Nesse Verão, não houve ondas de calor em Portugal. E, nesse Verão, Marco Chagas ganhava pela primeira vez a Volta a Portugal em bicicleta. 

40 anos depois, em 2022, o Marco Chagas já não corre; comenta a Volta na RTP e é uma das razões para eu gostar tanto de ciclismo. Nesse mesmo ano de 2022, muitas zonas do país enfrentaram três ondas de calor, algumas quatro. Em Bragança, por exemplo, somaram-se mais de 40 dias de calor intenso. Devido ao calor extremo e persistente, morreram 2 212 pessoas em Portugal. 

Eis as alterações climáticas. Não são o futuro; são o presente. Cheias, secas, ondas de calor, fogos florestais. Mais frequentes e mais intensos. 

Se não fizermos mais do que fazemos hoje para reduzir as emissões de Gases com Efeito de Estufa e para nos adaptarmos aos efeitos que já não podemos reverter, podemos passar a ter o dobro das ondas de calor que temos hoje. Estamos dispostos a aceitar o dobro das mortes? Não podemos estar. 

E não estamos, na verdade. 

É por isso que tantas cidades portuguesas se comprometeram já com a neutralidade climática até 2030. E tantas outras estão a avançar com a concretização dos seus Planos de Ação Climática. Portugal nada pesa nas emissões globais? Cada cidade conta. E são muitas as cidades que se unem, em Portugal e por todo o mundo, para aprender em conjunto e trabalhar em soluções que respondam, eficazmente, à dimensão do desafio. É nas cidades que se testam e se concretizam soluções concretas – tantas vezes inovadoras -, desenhadas com quem lá vive, para quem lá vive. 

Guimarães partiu das suas tradições e recursos locais e, inspirando-se no que de melhor se faz pelo mundo, construiu um edifício neutro em carbono para a prática de desporto de alto rendimento. Os 12 municípios da região Oeste juntaram-se e garantem transportes públicos grátis para quem ali vive, trabalha ou estuda. No Porto, 50% da eletricidade de 181 famílias do Bairro da Agra do Amial é produzida localmente, por painéis solares, e pesa menos na carteira daquelas famílias. Em Portalegre, com um investimento em tecnologia LED financiado apenas pelas poupanças futuras, a fatura anual com a iluminação pública caiu 350 mil euros e o consumo de eletricidade foi reduzido em 80%. Em Águeda, as poupanças com a melhoria da eficiência energética de edifícios públicos foram reinvestidas em novos projetos geradores de mais poupanças, alimentando assim um fundo rotativo. Em Braga e Matosinhos, andar de bicicleta ou de transportes públicos, evitando emissões, passou a dar créditos no comércio local. Em Viana do Castelo, depois de campanhas porta-a-porta, incentivos positivos e respostas diferenciadas para as zonas urbanas e rurais do município, separam-se mais 1 700 toneladas de biorresíduos. Leiria quer transformar um problema ambiental – os efluentes agropecuários – em biometano, energia verde que pode um dia abastecer as indústrias do vidro da região.Oito cidades do Norte do país juntaram esforços para criar uma fileira de mobilidade sustentável, Made in Portugal, e competitiva à escala global; pelo caminho, pretendem ser a primeira região neutra em carbono da Europa. Tão urgente como reduzir consumos e emissões é tirar do papel as medidas de adaptação aos efeitos das alterações climáticas previstas nos Planos de Ação Climática das nossas cidades. Bragança pretende plantar mais árvores na cidade, que são reguladores naturais da temperatura; adaptar a agricultura a espécies com menor necessidade de água; abrir novas faixas de gestão de combustível, para minimizar a propagação dos incêndios; melhorar o escoamento das águas fluviais e monitorizar caudais; criar um sistema de monitorização da qualidade do ar; tornar permeáveis áreas atualmente impermeáveis; e, entre outras medidas, operacionalizar mecanismos de alerta precoce, para ativar serviços de resposta de emergência e avisar as populações. 

Cada euro investido em adaptação pode traduzir-se num retorno de mais de 10 euros ao longo da década seguinte. E salva vidas. O dividendo é triplo: evitamos os prejuízos diretos de fenómenos como cheias, secas ou incêndios florestais, poupando vidas e protegendo meios de subsistência e modos de vida; dinamizamos o tecido produtivo das cidades, mais bem preparado para o futuro; e garantimos ganhos sociais e ambientais, por exemplo por via das melhorias na saúde pública ou na proteção dos mais vulneráveis, particularmente expostos aos efeitos destes eventos climáticos extremos. 

Bons exemplos não faltam. De Bragança a Olhão, quase metade dos municípios portugueses apresentaram planos como este, com ações concretas para reduzir emissões e para adaptar as cidades aos efeitos das alterações climáticas. Pelo mundo, são muitas as cidades que fazem o mesmo. 

E que se juntam, para trabalhar em rede. 

Cidades unidas aprendem mais depressa, pela propagação de bons projetos-piloto e de boas práticas; cidades unidas alcançam a massa crítica necessária à inovação ou à obtenção de financiamento; cidades unidas ganham a escala que alguns desafios exigem, da mobilidade à proteção da biodiversidade local. 

Tal como no ciclismo, pedalar em pelotão é sempre mais fácil. E, nesta corrida, só ganhamos se chegarmos todos ao pódio.

Publicado em 23 Fevereiro, 2026 - 09:00
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