Reerguer Leiria com a força da cultura e da comunidade

Cultura

Reerguer Leiria com a força da cultura e da comunidade

Ana Mota, Texto
DR, Fotografia 

É através da primeira residência artística do festival Fontes Sonoras que a Aldeia das Fontes, em Leiria, começa a reerguer-se, depois da tempestade. A comunidade local foi chamada a intervir e a pensar sobre o território, devastado pelo mau tempo. O trabalho de criação artística e intervenção territorial é liderado pelo artista Gil Delindro, que explora temas como a biodiversidade, ecologia e políticas territoriais. 

Com uma perspetiva aberta sobre os territórios naturais em que atua, Gil Delindro procurava explorar questões relacionadas com as políticas de florestação nacional e as formas de resiliência face aos incêndios florestais. Não só a região de Leiria invocava o problema, pelo facto de ter sido afetada na última década pelos fogos florestais, como o artista sonoro tem vindo a explorar o tema através do debate sobre a monocultura do eucalipto e pinheiro. E não deixou de o fazer, mas a urgência trazida pelo temporal determinou o ponto de partida do projeto. Para além de abordar a questão das espécies florestais, tocou na importância da ação comunitária, depois da passagem de uma tempestade.

Quando chegou à Aldeia das Fontes, onde nasce o rio Lis, encontrou um território profundamente afetado pelo mau tempo e pelas tempestades que atingiram a região de Leiria. Árvores caídas, outras partidas, cabos elétricos caídos no chão. Uma espécie de trauma do próprio lugar que só será resolvido com o envolvimento das pessoas.

Sem possibilidade de aceder à nascente do rio, devido aos efeitos do mau tempo, decidiu começar a criar a partir de um eucalipto de 50 metros, que impedia a passagem e o acesso à fonte. “Tento sempre usar esse modus operandi, de trabalhar conceptualmente com algo que está a acontecer no território. O tempo que passo no lugar com a comunidade, em harmonia com a paisagem e com o que está a acontecer naquela altura, determina o meu trabalho. É nesse momento que surge a matéria daquilo que vou explorar”, explica Gil Delindro, que trabalha no cruzamento entre o som, a escultura e a ecologia.

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O artista, natural do Porto, que já atuou na floresta amazónica, nos glaciares e no deserto do Sahara, constrói a partir de materiais orgânicos recolhidos localmente, que se afirmam através da sonoridade do espaço. No caso da Aldeia das Fontes, Gil Delindro cortou e retirou o eucalipto, que dará origem a uma peça escultórica cinética, que entrará em vibração através do som violento e grave da nascente. “Quando estivemos a trabalhar no eucalipto lembro-me de ter ligado a motosserra e praticamente não a ouvir. Neste momento o som da nascente é tão forte, que vou criar uma peça que será ativada através dessa pressão acústica da água a correr. A arte é uma forma de diálogo com o território e com a comunidade e é precisamente nas alturas da catástrofe que é preciso inverter o pensamento do desastre e criar arte em conjunto, como forma de superação dos problemas”, afirma Gil Delindro, que ouviu as preocupações da população ali residente antes de desenvolver o trabalho artístico propriamente dito.

Ao mesmo tempo que ajuda a comunidade a fintar os obstáculos trazidos pela tempestade, o artista reflete sobre as políticas de florestação e alerta para as monoculturas do eucalipto e do pinheiro. Questões centrais no trabalho que tem vindo a desenvolver sobre os incêndios florestais. “Existe a ideia de que a produção artística contemporânea é uma produção desassociada da realidade de todos nós, que vive fechada em si mesma. Aqui trata-se de uma produção artística que se relaciona com as pessoas e com o local”, explica o artista sonoro formado em escultura. 

Cultura como forma de resiliência  

A residência de Gil Delindro, a primeira de três momentos de criação do Fontes Sonoras, acontece num momento em que a cidade de Leiria tenta retomar a normalidade, depois de várias semanas a ser atingida pelo mau tempo. Embora a prioridade seja assegurar o normal funcionamento das principais infraestruturas do município, a realização da segunda edição do festival nunca esteve em causa. “Temos todos plena consciência que neste processo de reerguer Leiria e a comunidade em redor, a cultura vai ter um papel absolutamente determinante. É importante que se comecem a redesenhar novos futuros que até podem servir de exemplo noutros locais. Os fenómenos naturais extremos são cada vez mais frequentes e precisamos que a cultura se relacione com a paisagem e com a comunidade”, afirma Hugo Ferreira, fundador da Omnichord, produtora responsável pela organização do Fontes Sonoras.

Iniciado em 2025, o projeto estrutura-se em três residências artísticas distribuídas ao longo do ano, no inverno, na primavera e no outono. Os artistas convidados são desafiados a explorar o som como ferramenta de leitura sensível da paisagem, da ecologia e das relações entre humano e ambiente.

Na segunda edição, o Fontes Sonoras arranca com a residência de Gil Delindro, que decorre entre 22 de fevereiro e 1 de março e culmina com uma apresentação pública este domingo, na aldeia das fontes. Depois de Gil Delindro, o Fontes Sonoras prossegue na primavera, entre 12 e 19 de Abril, com Matilde Meireles, artista sonora portuguesa cuja prática cruza escuta profunda, composição e investigação sobre memória, território e perceção sonora. No outono, entre 25 de outubro e 1 de novembro, o projeto acolhe Kathy Hinde, artista e compositora britânica cujo trabalho explora fenómenos naturais, sistemas ecológicos e processos colaborativos entre humanos e não-humanos.

O Fontes Sonoras é uma iniciativa da Omnichord, com curadoria de Raquel Castro e direção artística de Gui Garrido, dedicada à criação artística em diálogo com o território e a comunidade da Aldeia das Fontes, promovendo novas formas de escuta e relação com o ambiente.

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Fotografia: João Diogo
Publicado em 27 Fevereiro, 2026 - 17:01
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