
Natureza
Biovilla: Regenerar a terra e a vida no embalo da natureza
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
CRUA e Biovilla, Fotografia
Ainda mal se falava de sustentabilidade quando Filipe Alves e Barbara Leão de Carvalho se apaixonaram por um recanto da serra da Arrábida e decidiram, no próprio dia, que ali iriam fundar uma comunidade onde a natureza e as pessoas coexistissem em harmonia. Para muitos não passava de uma ideia de hippies e ingénuos, mas ambos sabiam bem o que queriam porque tinham andado a viajar pelo mundo à descoberta de eco aldeias, projetos de permacultura e comunidades coletivas, como Auroville, na Índia, onde encontraram um propósito e uma inspiração para o que viria a ser a Biovilla.
Quinze anos depois, esta cooperativa para o desenvolvimento sustentável recebe visitantes de todo o mundo e coleciona distinções, mas, mais do que isso, tornou-se um “autêntico laboratório vivo, capaz de experimentar diferentes soluções, tecnologias e metodologias que provam como é possível viver de forma saudável, sustentável e regenerativa”, diz Filipe Alves. Projetos em marcha não faltam, como um turismo de natureza, uma horta biológica, uma agrofloresta e diversas atividades de educação ambiental, tudo a meia dúzia de quilómetros de Palmela e Setúbal, mas em pleno parque natural, num terreno bucólico à sombra da encosta da serra.
Nos últimos anos, tornou-se também uma incubadora de negócios sustentáveis, através de dois programas de emprego, destinados a jovens e desempregados de longa duração. O primeiro chamou-se VER (Viveiro de Emprego Regenerador) e dele brotaram diferentes projetos, como um restaurante vegetariano, um negócio de cogumelos ou um livro para crianças sobre ecologia regenerativa. A este sucedeu o SER (Semente de Emprego Regenerador), que deu origem, por exemplo, a uma food truck de comida vegetariana e a uma empresa de comércio justo. “Partindo da lógica de capacitação e experimentação, todos os participantes podem testar as suas ideias e sonhos, por via de negócios sustentáveis que lhes permitem ter sucesso ou até falhar, mas falhar aprendendo”, explica o cofundador da Biovilla, acrescentando que a ideia vai ser replicada em França, Itália e Bulgária.
Nesta década e meia de portas abertas também a cooperativa aprendeu, cresceu e evoluiu, a ponto de acreditar que já não basta cultivar o conceito inicial de sustentabilidade. “A urgência dos tempos em que vivemos obriga-nos a pensar as coisas de forma diferente, por isso convidamos todos os que nos visitam ou aprendem connosco a ir além da ambição de serem sustentáveis ou neutros em carbono. É preciso mais! Têm de ser regenerativos para eles próprios e para o ecossistema que os envolve ou que sustenta o seu negócio, sempre com uma visão de muito longo prazo”, sublinha Filipe Alves, que também tem trabalhado como investigador da Faculdade de Ciências de Lisboa na área das alterações climáticas. “Cada ação tem significado e o futuro não espera”, repete o cientista em jeito de alerta verde. “É preciso viver a regenerar”.