Habitar em partilha é sonho comunitário ou último recurso

Sociedade

Habitar em partilha é sonho comunitário ou último recurso

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto

Viver a cidade em partilha pode ser um reflexo de contrastes urbanos: para uns, a escolha por um modo de vida mais coletivo e solidário; para muitos outros, uma solução não desejada, refém da crise na habitação que gera individualismo à força. O que mostra a dicotomia entre um bairro hippie na Dinamarca e um quarto nos subúrbios de Lisboa? 

Ávido por liberdade, tolerância e amor, Renato Correia Gudbergsen encontrou em Copenhaga a cidade que há muito procurava. Afinal, só mesmo ali um hippie excêntrico e de rastas enormes poderia ser pedagogo de crianças num bairro de classe média-alta como Osterbro. “Imagina o que é um rastafári doidão cuidar e levar ao parque 15 loirinhos pequeninos, com idades entre um e três anos. As pessoas estranhavam sim, mas respeitavam, e eu adorava esse contraste”, recorda o brasileiro, a viver na capital dinamarquesa há quase 35 anos. Durante a maior parte desse tempo teve mais dois empregos na “cidade capitalista” e outro “não oficial, à noite, num mundo à parte, uma anarquia organizada”: a Cidade Livre de Christiania. 

Fundada em 1971 por um grupo de hippies e anarquistas, esta é uma comunidade autogovernada e autoproclamada independente que insiste em manter um estilo de vida alternativo, assente na força do coletivo e em fundos comuns. “Por exemplo, quando comecei no café/restaurante onde estive 30 anos, era preciso oferecer 80 horas de trabalho para mostrar o nosso compromisso, e havia um fim de semana por mês onde todos se voluntariavam para fazer o que fosse preciso, em prol da comunidade, numa partilha que sempre uniu as pessoas”, conta à s_cities.  

Outro pilar desta identidade assenta no modelo habitacional, baseado na ausência de propriedade, ou seja, ninguém é dono de nada e quem quiser casa tem de respeitar uma (longa) lista de espera e a decisão final da assembleia de moradores. “Eu só consegui porque a minha namorada na altura já lá morava. Tínhamos uma casa só para nós, mas também há quem prefira viver em grandes coletivos, por exemplo, com umas 20 pessoas. Em qualquer dos casos, o que se paga é muito pouco, comparativamente com outros lugares de Copenhaga”, explica Renato, que só viveu em Christiania durante um ano porque não quis perder a ligação com o resto da cidade.  

Num bairro onde a habitação é encarada como um direito básico e coletivo, a taxa que cada morador paga chegou a ser igual para todos, independentemente do tamanho da casa, mas foi ajustada após alguns protestos. E isso mostrou que do conflito também pode nascer partilha. “Quando o valor subiu para as habitações maiores, quem lá morava passou a dividir a casa com outras pessoas e a viver ainda mais em comunidade, reforçando a coesão social”, reflete o agora funcionário de um centro de congressos da capital dinamarquesa. 

Na opinião de Helen Jarvis, investigadora da Universidade de Newcastle, o bairro mais alternativo de Copenhaga é um modelo prático de urbanismo de decrescimento porque oferece aos moradores a possibilidade de priorizarem as relações humanas em detrimento do consumo material. “Christiania funciona como uma infraestrutura de partilha que permite a resistência à roda-viva do ganhar para gastar. Ao priorizar o valor de uso em vez do valor de mercado, a Cidade Livre demonstra que o decrescimento não é uma perda, mas um ganho em tempo, autonomia e convívio”, escreveu num artigo publicado no Nordic Journal of Architectural Research. Para a geógrafa, este é também um exemplo de habitabilidade informal que mostra como é possível criar condições de vida dignas e sustentáveis através de práticas colaborativas à margem do Estado e dos modelos de mercado.  

Tiago Mota Saraiva, arquiteto, urbanista e especialista em políticas de habitação e processos participativos, diz que modelos como o de Christiania têm como grande fator de interesse a sua pluralidade, além de “não serem repetíveis, porque é preciso construir algo novo sobre as realidades sociais que existem”. Mas isso tem vindo a ser negado em Portugal, acrescenta, defendendo que “temos um modelo chapa-cinco ou, quando muito, dois ou três modelos sobre o qual as pessoas têm de aceder à habitação, e isso limita-nos, porque torna a nossa realidade mais pobre”.

 

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A grande maioria das casas e estruturas de Christiania aproveita materiais reciclados e reaproveitados
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Renato Correia Gudbergsen no dia em que a comunidade de Christiania se uniu para recuperar a Pusher Street, até então dominada por traficantes de droga

Quando a partilha deixa de ser escolha 

Habitar em partilha pode ser uma opção, como acontece na Cidade Livre de Christiania ou em diferentes espaços de coliving, mas, em muitos casos, tornou-se um último recurso. Por todo o país, cada vez mais adultos e famílias veem-se empurrados para uma arquitetura social de sobrevivência, onde a privacidade é sacrificada em nome da necessidade económica. A crise da habitação expôs uma realidade ainda não sustentada em dados, mas já se tornou claro que “os aumentos inesperados e incomportáveis dos valores das rendas, acompanhados de ameaças de despejo, contribuem para alimentar ambientes de incerteza e de indefinição, com consequências nefastas para o bem-estar dos indivíduos e suas famílias”, diz Maria Vicente, coordenadora nacional da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN, na sigla em inglês). Esta organização ouviu alguns relatos sobre o tema para o estudo “Portugal em Telhados de Vidro” e constatou que “o custo elevado da habitação vai além do valor do aluguer ou da hipoteca do imóvel, pois é observável a importância sobre a escassez de habitações acessíveis e a sobrecarga de exigências de garantia financeira”, revela a responsável. 

À semelhança de tantos outros, Amanda Abreu teve de arrendar um quarto para conseguir suportar o elevado custo da habitação. A viver em Portugal há nove anos, a jovem brasileira já tinha partilhado várias casas, mas ficou “em choque” quanto voltou a precisar no final do ano passado. “A realidade de 2025 já não era optar por alugar uma casa nem um quarto, mas sim uma cama num quarto superlotado de pessoas, com preços que variavam entre 200 e 400 euros por cama”. Lisboa tornou-se, então, uma miragem e começou a procurar mais longe, até que, “por sorte”, encontrou uma alternativa na zona do Lumiar/Odivelas. “Arranjei uma casa partilhada com uma mulher brasileira e o seu filho. Ela precisa de mais alguém para conseguir pagar a renda alta do apartamento e eu preciso de um sítio onde possa pagar uma renda num ambiente com condições dignas. Essas realidades não mostram uma escolha, mas sim a falta de opções que temos na Lisboa de hoje, é uma situação improvisada”, desabafa à s_cities. O que começou por ser uma necessidade tornou-se numa amizade entre os três, mas o desejo de ter casa própria foi-se mantendo vivo, até esbarrar nos preços atuais. “Tenho procurado, mas acabo sempre por desistir ao perceber que o mercado imobiliário aqui não oferece opções reais para a realidade atual dos trabalhadores do país”, explica. 
 
Tiago Mota Saraiva está convicto de que “o problema da habitação é uma autêntica bomba-relógio” que ameaça a partilha. Exemplos não lhe faltam, “como os casais que se separam, mas têm de continuar a dividir a mesma casa, os jovens de bairros municipais, entretanto adultos, que não conseguem deixar a casa dos pais e, claro, os emigrantes que sofrem com a sobreocupação das casas ou, no mínimo, têm de alugar quartos”. Amanda Abreu sente-o na pele e diz que, de todas as pessoas imigrantes que conhece, “cerca de 80% sofrem os efeitos da falta de políticas habitacionais e têm de partilhar casas”, lembrando ainda que, de acordo com dados oficiais, 23% dos cidadãos não-europeus em Portugal vive em casas sobrelotadas. 

Para Renato Miguel do Carmo, investigador no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-Iscte) e diretor do Observatório das Desigualdades “é o próprio direito à cidade que está em causa”, porque a urbe tornou-se “cada vez mais circunscrita a uma determinada elite com acesso a condições que dificilmente podem ser almejadas por outras classes sociais”. E não estamos a falar somente de pessoas mais desfavorecidas, garante, mas também “de muita classe média e de muitos jovens que cada vez mais têm de optar entre alugar uma casa num concelho periférico – porque em Lisboa tornou-se impossível – ou alugar um quarto e render-se a essa inevitabilidade”. Também por isso, o sociólogo defende que, mais do que uma forma de partilha, este é um constrangimento imposto, “revelador de uma grande vulnerabilidade que está a acontecer às pessoas nesta situação, não por opção, mas porque não têm outra possibilidade”.

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Maria Vicente, da EAPN, admite que este fenómeno tenha tendência para se agravar, caso não sejam adotadas medidas estruturais e consistentes. Defende, por isso, que “o futuro da habitação em Portugal depende fortemente da capacidade de o Estado assumir um papel mais ativo na garantia do direito à habitação, trabalhando também as áreas do urbanismo e da mobilidade, no sentido de prevenir o agravamento de situações de pobreza e de exclusão social”. Nesse sentido, a EAPN propõe, por exemplo, um maior investimento nas respostas de habitação social, o reforço das políticas públicas de acesso à habitação a custo acessível, o combate ao mercado informal de arrendamento e o reforço da proteção às famílias com crianças no acesso à habitação digna e com preços controlados. 
 
Também Tiago Mota Saraiva diz que “é urgente atuar e encontrar soluções”, a começar por medidas de regulação do mercado de arrendamento, e por uma “mobilização popular na construção da sua própria solução, através de modelos sem fins especulativos e lucrativos”. Refere-se, em concreto, à habitação cooperativa, que “permite a agregação de poupanças numa lógica inicial e, sobretudo, a construção a custos controlados”. Isto porque “enquanto os fundos imobiliários trabalham com lucros na ordem dos 30% sobre o investimento que fazem, as cooperativas vão, no máximo, aos 5% de fundo de reserva, sem esquecer a segurança que oferecem”.  

Ainda assim, o arquiteto alerta que “o sistema parece estar a ser criado para que algumas empresas imobiliárias se transformem em cooperativas e possam aceder a benefícios fiscais”. “Basta olhar para algumas estruturas cooperativas que aparecem a fazer casas para ricos. Isso não é uma solução, é um embuste para esconder uma empresa imobiliária”, acusa o professor associado convidado na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. 

Da mesma forma, Amanda Abreu acredita que o futuro da crise da habitação em Portugal vai depender das políticas que forem implantadas hoje, até porque “vemos exemplos de outros países onde a oferta cresce, incluindo o Brasil, onde o mercado de construção é aquecido e onde existem linhas de crédito diferenciadas e políticas públicas, por isso as pessoas não andam a partilhar quartos como aqui”. E modelos como Christiania, seriam uma opção? Embora admita que não se imagina a viver num local como a Cidade Livre, não esconde a admiração por aquele “grupo de pessoas que escolhem viver as suas vidas da forma como desejam”. “Tenho a certeza de que vivem melhor do que nós, no sentido de qualidade de vida, sem doenças típicas do sistema insaciável que fomentamos, sem tanta depressão, ansiedade, sem estar sempre à espera da próxima catástrofe política produzida por algum político louco ou da próxima crise económica que nos vai deixar em escassez”, remata a conversa.

Publicado em 22 Abril, 2026 - 07:15
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