
Cultura
Oficinas do Convento: das ruínas nasce a arte que desassossega a cidade
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Rafael Esteves, Fotografia
Tal como os campos, que deixam a terra em descanso para recuperar a fertilidade, também as cidades têm lugares de pousio, muitas vezes esquecidos, à espera de que o tempo e o Homem os resgatem. Em Montemor-o-Novo, muito antes do turismo e dos nómadas digitais começarem a reabilitar casas e palacetes, já a associação Oficinas do Convento oferecia um novo propósito a espaços em ruínas ou abandonados desta localidade alentejana. Tudo começou pelo Convento de São Francisco, edifício histórico com origens no século XIV, mas desprezado durante muito tempo, que chegou a ser depósito municipal e até canil.
A certa altura, entre materiais de construção, paletes e paredes rachadas passou a haver também um pequeno ateliê de artistas plásticas, cheio de vontade de “criar e desassossegar”, que viria a estar na origem formal da associação, fundada em 1996. Aos poucos, foram fazendo pequenas melhorias e ganhando o direito de ocupar quase todo o espaço, propriedade do município, até “se tornar num oásis ou recife cultural, com zonas probióticas para a fermentação e para a conspiração, em áreas como as artes gráficas e visuais, a cerâmica, a arquitetura, a fabricação digital ou a sonoscultura”, revela Tiago Fróis, diretor artístico da Oficinas do Convento.
Quem passa pela rua e encontra aquele edifício degradado nem imagina que o interior fervilha de criação artística. Desgaste só mesmo nas paredes, tetos e abóbadas. De resto, à volta de um grande claustro há salas cheias de vida, história e memórias, que ganharam novas funções para receber oficinas e ateliês, exposições, concertos, zonas de trabalho e formação, além de uma camarata para participantes dos programas de residência artística. Por vezes, encontram-se objetos e peças de arte organizadas com critério, noutras um emaranhado de madeiras, ferros, fios e ferramentas, dando uma perceção de ordem e caos, tudo ao mesmo tempo, mas sempre com respeito pelo legado material e imaterial de um lugar que vive no limite da possibilidade. “Ocupar uma ruína não é fácil. Pode ser muito romântico e bonito para quem vem de fora, mas é uma resistência muito grande. Ao frio, aos elementos, todos eles, e também à dificuldade de conseguir financiamento e ter autorização para pequenas obras. Há, portanto, uma existência muito frágil a pôr em prova a nossa tenacidade”, diz o artista e fotógrafo.
Os que lá criam e trabalham dizem que aquelas oficinas têm um magnetismo muito próprio, que faz querer estar, experimentar, arriscar e voltar. É o caso dos arquitetos italianos Cristina Gallizioli e Marco Ferrari, dupla conhecida por AIDEL, que costumam correr o mundo em residências artísticas, mas nunca deixam de regressar “ao aconchego” das Oficinas do Convento. “Aqui, sentimo-nos em casa. Na primeira vez foi um acaso, mas depois tornou-se um espaço onde podemos experimentar novas coisas e fugir à nossa zona de conforto, sem o julgamento dos curadores de uma grande galeria ou museu. Encontramos, isso sim, uma grande comunidade de pessoas que estão muito curiosas umas pelas outras”, comenta Cristina, enquanto puxa para a conversa o programador João Rolaça, que não podia estar mais de acordo. “Aquilo que nos distingue é, precisamente, esse lado muito experimental, esse foco no fazer, no pensar através do fazer, no pensar com as mãos, com os olhos e com o corpo todo. E, ao mesmo tempo, também estamos abertos ao desconhecido e promovemos um cruzamento de múltiplas áreas porque somos uma mistura de muitas coisas”, explica o escultor e investigador, responsável pelos projetos de artes plásticas e artes visuais.
Ele próprio é um caso de apego a este lugar. Embora tenha estudado em Lisboa, na Faculdade de Belas Artes, e tirado o mestrado em Londres, acabou por se mudar para Montemor-o-Novo, há cerca de 13 anos, onde se mantém até hoje. Um entre muitos “forasteiros” que encontram na cidade terreno fértil para a criação, tal é a ebulição cultural e o número de associações e coletivos dedicados às artes, sem esquecer o sossego e a qualidade de vida que a região oferece.
“Se existe algum fator que fixe realmente as pessoas em Montemor, ele é, sem dúvida, a dinâmica sociocultural da cidade”, sublinha Tiago Fróis, que ali vive desde os dois anos, quando os pais foram convidados pelo município para fundar a Oficina da Criança, em 1981. E por lá criaram raízes. “É que esta terra agarra-se à pele e nunca mais sai de nós”.
A cultura vai ao forno e gera comunidade
Além do Convento de São Francisco, que passou a ser a sede da associação e ganhou o estatuto de Centro UNESCO em 2010, o coletivo resgatou mais dois espaços da cidade que estavam em ruínas ou abandonados há décadas. Primeiro, nos anos 90 do século passado, tomou conta do Telheiro da Encosta do Castelo, um lugar dedicado à produção de materiais de construção tradicional, com destaque para o tijolo burro e a tijoleira. Também neste caso foi preciso resiliência, porque quando ocuparam aquele terreno pouco mais encontraram do que os restos de um edifício e de um velho forno coberto de silvas. Com a ajuda do antigo mestre, conseguiram recuperar as práticas de outrora e “hoje é um espaço de investigação, inovação e experimentação que trabalha apenas com terras locais e métodos tradicionais, desde a preparação da terra até à moldagem do tijolo”, como conta a atual mestre, Mafalda Rosário, provavelmente a única mulher no país com estas funções. Singulares são também os dois fornos a lenha e um forno de grés de sal, único em Portugal, que utiliza sal para vitrificar as peças.
A dois passos dali fica o Centro de Investigação Cerâmica, situado nos antigos Lavadouros Públicos de Montemor-o-Novo, como denunciam os velhos tanques que foram recuperados e mantidos no local. Por este espaço amplo, cheio de peças, fornos e rodas de oleiro, passam artistas nacionais e internacionais em residências artísticas de escultura, cerâmica e design, mas também grupos para oficinas, workshops e visitas, bem como profissionais e curiosos da área. “Aqui procuramos encontrar maneira de cruzar a cerâmica com outras artes e técnicas, por exemplo com a serigrafia ou a impressão 3D e a laser, porque ao termos o entusiasmo por estas tecnologias há, naturalmente, uma grande vontade de inventar coisas novas e ver o que acontece”, revela Ana Almeida, ceramista e investigadora. Com ela trabalha Leonor Mire, outra ceramista com “barro no sangue”, filha de um antigo mestre de telheiro, que lembra a importância de “pegar outra vez numa estrutura pública, outrora abandonada, e capacitar não só o espaço, mas também as pessoas”. Isto num lugar para todos, aberto à comunidade, onde o saber e o tempo ganham outro valor. “Agora que já não se lava a roupa à mão, podemos usar este centro para coisas que valorizam o saber fazer. Aqui ganha-se uma nova perceção dos materiais e dos processos, hoje em dia muito industrializados, e passa-se a ter noção de uma outra realidade, mais artesanal, e do tempo que as coisas demoram”, acrescenta.
Juntos, os três espaços principais da Oficinas do Convento formam um ecossistema que tem impacto na cidade, mantendo o tal objetivo inicial de desassossegar a terra e as gentes, e funcionando como um eixo de desenvolvimento local. As portas estão sempre abertas, mas o coletivo também faz questão de “sair do casulo para servir e estimular a comunidade”, como mostra o evento Cidade PreOcupada, que durante largos dias organiza exposições, concertos, oficinas, teatro e performances em vários pontos do concelho. Outros exemplos são a iniciativa Mesa Posta, capaz de pôr as pessoas a conversar, cantar e petiscar à volta de uma mesa colocada na rua, ou a Jornada de Arquitetura Participativa, que construiu um forno comunitário na aldeia da Casa Branca para ajudar a recuperar o convívio entre os habitantes.
“Sempre acreditámos que cultura e comunidade são duas coisas que nunca deviam andar soltas, porque uma não consegue viver sem a outra”, sublinha Tiago Fróis, recordando um dos principais objetivos da Oficinas do Convento. Nestes quase 30 anos de vida, foi preciso “desatar nós e derrubar muros, por vezes literalmente”, umas vezes resistindo ao sistema, noutras atuando dentro dele, mas com ativismo. “É verdade que o sistema é um problema, mas para se ser um bom pirata e mudar alguma coisa é preciso saber as ferramentas que ele te dá, senão andas alienado ou ficas lixado”, diz o diretor artístico. E neste percurso, foi preciso andar muitas vezes em contramão? “Nada disso, acho que sempre fomos na mão certa. Após este tempo todo, acredito que seguimos no caminho certo”, remata o artista.