
Sociedade
Esperança: a emoção política que pode romper com a apatia climática
Ana Mota, Texto
Igor Martins, Fotografia
As alterações climáticas requerem mudanças comportamentais que serão determinantes na mudança da ação. Em sala de aula, acompanhados pela academia e em assembleias de cidadãos, serão os jovens os grandes protagonistas da ação climática. Da ansiedade à esperança, são eles que podem mudar o destino das gerações futuras.
A necessidade de mobilização social para o combate às alterações climáticas é uma certeza. Cada um de nós vai ter que agir individualmente e de forma coletiva no sentido de minimizar os eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. Segundo Lorraine Whitmarsh, cientista ambiental que há décadas estuda as perceções públicas sobre as alterações climáticas, para se atingir a neutralidade carbónica, 60% das medidas requerem mudanças comportamentais ou sociais. A estimativa apenas considera o comportamento de consumo da população, porque se forem consideradas mudanças mais abrangentes, como posições políticas ou ações comunitárias, que criem novas normas sociais, a percentagem sobe para quase 100%.
Se por um lado é necessário levar as pessoas a agir, existem vários fatores que interferem negativamente com as perceções das alterações climáticas. O facto de se agravarem de forma gradual, com um impacto mais significativo a longo prazo, leva a que muitas vezes exista uma falta de empatia relativamente ao tópico. O cérebro, que funciona com base em expectativas e recompensas, adquire um distanciamento emocional relativamente à emergência climática. Uma recompensa imediata, mesmo que menor, tem mais valor para o ser humano do que uma recompensa maior, a longo prazo.
Enquanto a comunidade científica enfrenta o desafio de reduzir a distância psicológica em relação às alterações climáticas, os dados indicam que são os jovens com menos de 25 anos que têm maior preocupação climática, ao mesmo tempo que se sentem incapazes de agir. “Acho que desempenhamos o nosso papel para combater as alterações climáticas, mas a responsabilidade pertence muito àqueles que têm mais poder e que não fazem nada. São necessárias medidas mais drásticas, mas essas medidas não estão no nosso poder”, atira Francisca Fernandes, de 17 anos, que vê a sua opinião reforçada pelo colega Salvador Marques. “Fico um bocado assustado, mas não me sinto com esse peso todo na consciência. Sei que é uma parte meio egocêntrica e egoísta da minha parte, porque sei que enquanto eu estiver vivo, não vai acontecer grande coisa de diferente. O problema vai ser na próxima geração”.
O sentimento de impotência e desresponsabilização vai sendo partilhado pelos jovens do 12º. ano da Escola Secundária de Rio Tinto, que acrescentam camadas à perceção que formulam sobre a emergência climática. “A guerra também tem um grande impacto na poluição. Acho que o Trump fala muito de clicar num botão e mandar uma bomba, mas não pensa nas consequências que vêm depois”, considera Rodrigo Ramos. Maria Nunes concorda: “Traz revolta porque há quem realmente esteja a tentar agir e fazer algo diferente e Donald Trump foca-se muito em si próprio e no que pensa. Os líderes políticos deviam fazer as coisas em prol do bem maior, de toda a gente e deles próprios, porque no final somos todos iguais”.
A ideologia política é, segundo Lorraine Whitmarsh, um dos fatores que mais contribuem para o ceticismo climático. O eleitorado que se posiciona mais à direita tende a opor-se mais à intervenção governamental e, consecutivamente, a rejeitar políticas climáticas que influenciam estilos de vida ou que impõem restrições ao funcionamento de empresas. “Os partidos populistas estão a tentar transformar as alterações climáticas num tema fraturante e, assim, polarizar a opinião pública. No entanto, os dados mais recentes mostram que existe uma surpreendente convergência entre eleitores de todo o espectro político no que diz respeito a espaços verdes, à qualidade do ar, e às energias renováveis. Será uma oportunidade para se comunicar entre segmentos e envolver grupos diversos na ação climática”, afirma a cientista ambiental da Universidade de Bath, em Inglaterra, que trabalha no desenvolvimento de medidas ambientais. Uma vez que são os jovens que mais impacto vão sentir relativamente às alterações climáticas, também são eles o foco de projetos académicos e de investigação que os querem envolvidos em soluções.
Trabalho em rede encurta distâncias
Num trabalho feito em comunidade, uma equipa multidisciplinar de investigadores da Universidade do Porto dinamiza um projeto que envolve o desenvolvimento de soluções ambientais, através da cidadania participativa. Com um horizonte temporal de quatro anos, o Civitas atua em quatro regiões da zona norte do país (Chaves, Peso da Régua, Vila Nova de Famalicão e Vila Verde), no sentido de envolver as comunidades na mudança climática. “Achamos que é importante pôr crianças e jovens a refletir sobre as questões ambientais, mas depois queremos alargar à comunidade e vamos envolver os adultos nestas discussões, através de assembleias de cidadãos. É necessário que as pessoas percebam ativamente o que acontece nas suas comunidades para que observem que estas mudanças climáticas estão de facto a acontecer”, explica Isabel Menezes, investigadora e docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. É com a aproximação física e psicológica ao problema, fora das comunidades digitais, que é mais provável sensibilizar para as alterações climáticas.
Ao nível social, a segmentação da sociedade em grupos fechados e homogénios encurta o sentimento de comunidade e pertença, necessário ao diálogo construtivo e à cooperação. A solução passa por criar espaços de interação, onde o principal objetivo não é ganhar nem perder, mas criar condições para conversar. Na sala de aula, longe das redes sociais e num grupo fora do whatsapp, os alunos continuam a formular opiniões. Em vez de uma troca de comentários on-line, o diálogo torna-se construtivo e dinâmico. “Se nos conseguíssemos juntar em sociedade e bater o pé talvez os governos mudassem as suas atitudes. Só que para isso tínhamos de nos juntar e isso é difícil”, afirma Francisca Fernandes, que é sempre muito participativa nas discussões da turma do 12º. ano de Línguas e Humanidades. Na outra ponta da sala, ouve-se outra opinião, desta vez sobre as redes sociais. “Numa era do digital, em que temos muita informação, somos levados a consumir mais. Acabamos por comprar coisas que não precisamos devido às influências que temos. Sinto esse impacto, embora tente mudar”, desabafa Beatriz Costa. Luna Martins também quer participar. “Não temos um governo que realmente se importe com as questões ambientais, que é uma coisa que nos prejudica a nós e que vai prejudicar os nossos filhos no futuro”.
O sentimento de impotência é dos que mais pesa na ansiedade dos jovens, os que sofrem mais com a ecoansiedade gerada pelas preocupações com as alterações climáticas e com a degradação ambiental. São eles os mais afetados pelos riscos climáticos, ao mesmo tempo que têm menos poder para os enfrentar. “Estes alunos estão sempre com aquela convicção de que são impotentes para mudar o que quer que seja. Olham para a política esperando sempre que alguém os representa, em quem depositam confiança de voto, seja capaz de promover essas alterações. Demitem-se um bocadinho, ainda que sejam preocupados com os problemas”, explica Manuela Durão, professora de História que acompanha o debate dos alunos sobre alterações climáticas.
Jovens são os que mais sofrem de ecoansiedade
No primeiro grande estudo científico sobre ansiedade climática e os jovens, publicado em 2021 na revista The Lancet Planetary Health, os jovens portugueses estavam entre os que apresentavam maiores níveis de preocupação com as alterações climáticas, comparativamente com os restantes nove países que participaram no estudo (Brasil, Reino Unido, França, Finlândia, Estados Unidos, Austrália, índia, Nigéria e Filipinas). Os indicadores geraram preocupação junto da comunidade científica que quis aprofundar os motivos da ecoansiedade nos jovens, numa altura em que “as alterações climáticas são um processo irreversível”.
Uma equipa multidisciplinar de investigadores nacionais e internacionais concluiu que 76% dos jovens portugueses têm algum tipo de preocupação com o futuro do ambiente. Com destaque para as raparigas, que têm uma probabilidade de relatar algum tipo de ecoansiedade duas vezes superior ao dos rapazes. Dado que é explicado pelo facto das raparigas apresentarem um limiar de perceção de risco mais baixo, ou seja, sentem que estão mais facilmente numa situação de risco. “A ecoansiedade não é uma coisa má, é uma resposta moral a algo que está a acontecer à nossa volta e que nos pode afetar a nós e à nossa família. Se essa preocupação for canalizada para comportamentos ditos pró-ambientais, atitudes de conservação da natureza, poupança energética e até envolvimento em ativismo, essa ansiedade pode ser uma coisa boa”, explica Ana Isabel Ribeiro, uma das sete autoras do estudo sobre ecoansiedade nos jovens.
O estudo não só permitiu perceber os níveis de ecoansiedade dos jovens, como também identificou os fatores que estão relacionados com os níveis de ecoansiedade. A questão do consumo de informação foi considerada relevante, em termos individuais, uma vez que os adolescentes que consultam mais fontes de informação sobre o ambiente, em particular documentários, têm níveis mais altos de ecoansiedade. “A ecoansiedade tem mais a ver com perceções, pelo menos nesta população, do que com vivências e experiência relacionadas com eventos ligados às alterações climáticas e à degradação ambiental. Se calhar temos que instruir os jovens sobre como separar informação de desinformação, porque não sabemos até que ponto a informação que eles consomem é de fontes fidedignas”, afirma a investigadora no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto.
A influência dos meios de comunicação, - a principal fonte de informação sobre alterações climáticas -, também foi identificada pela psicóloga britânica Lorraine Whitmarsh como um dos principais fatores que interferem com a perceção das alterações climáticas. Ao escolherem a informação mediática que consomem, os jovens, assim como a sociedade em geral, procuram mensagens que confirmem aquilo em que já acreditam, o chamado viés de confirmação. “A educação é importante, mas quando existem muitas mensagens fora da escola que promovem o consumo excessivo, torna-se difícil que a educação climática resulte em comportamentos amigos do ambiente. As pessoas são mais influenciadas pelas pessoas à sua volta e pelos meios de comunicação que moldam aquilo que é visto como normal e aspiracional”, explica a cientista ambiental.
As mensagens maioritariamente catastróficas, associadas às alterações climáticas e difundidas pelas redes sociais, acentuam o sentimento de descrença e incapacidade e justificam a apatia social relativamente à ação climática. Por outro lado, a esperança, “uma emoção política poderosíssima”, na opinião da psicóloga Isabel Menezes, pode ajudar a criar um sentimento de poder e de mudança no percurso da ação. Ao acreditarem que podem fazer alguma coisa para mudar a realidade, com efeitos mais imediatos e de proximidade, os seres humanos são mais facilmente levados a agir.