
Inclusão
Comunidade contra o estigma: filme de moradores conta a vida ali e aqui
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Terratreme e C.M. Alamada, Fotografia
“Ali, Aqui” é o título de um filme coletivo que dá corpo e voz à população dos bairros do Monte da Caparica, em Almada. Desafiados por um projeto de cinema comunitário, são os próprios habitantes a filmar, contar histórias e mostrar os caminhos que a vida leva num território à margem.
Muitos olhares e estereótipos já se lançaram sobre o Monte da Caparica, mas quem lá vive, como Martina Maher, diz que “é preciso conhecer as pessoas e as suas histórias” para descobrir a vida, como ela é, nesta zona de Almada. O que passa nas televisões está longe de corresponder à realidade, garante, acabando por “influenciar negativamente as perceções exteriores”. Nesse caso, porque não realizar um filme capaz de mostrar os vários bairros por dentro, feito com e pelos habitantes? A pergunta serviu de gatilho a um projeto comunitário que juntou profissionais do cinema e residentes até dar origem a uma longa-metragem, a que chamaram “Ali, Aqui”.
Esta moradora, de 26 anos, foi uma das primeiras a responder à chamada. Movida pela vontade de explorar o mundo da sétima arte, mas também de dar a conhecer o melhor do Monte da Caparica, recorda a vontade coletiva de “desestigmatizar uma perceção errada que se foi criando”, muito associada à violência, à toxicodependência e à pobreza. “No fundo, quisemos mostrar um sítio onde as pessoas fazem a sua vida, como todas as outras, ou seja, vão às compras e relacionam-se entre si, sem nunca deixarem de enfrentar as dificuldades económicas num território tantas vezes esquecido”, afirma a técnica universitária.
Desse desejo de mostrar as vivências locais emergiu um retrato ficcional, mas que percorre um território real, com atores que, efetivamente, o habitam. O argumento recupera várias histórias e experiências do dia a dia, fazendo sobressair uma ideia de comunidade e espírito de entreajuda transversal a todo o filme. “Aqui vivem muitas pessoas de origem cabo-verdiana, por isso, há uma expressão crioula – djunta man – que parece estar sempre presente. Basicamente, transmite uma ideia de juntar as mãos e fazer coisas juntos, algo que diz muito a todos”, comenta Martina.
O próprio filme, produzido a várias mãos, acabou por resultar de uma união de esforços entre a produtora de cinema Terratreme, a associação Os Filhos de Lumière, o realizador Luís M. Correia e, claro, os moradores. Martina, por exemplo, trabalhou na realização e no argumento, enquanto outros foram protagonistas, figurantes ou participaram nas filmagens e captação de som, sempre com orientação de profissionais. A todos também foi pedido um contributo na seleção das histórias e do desenrolar do filme, além dos locais a filmar, porque ninguém, como eles, conhece tão bem a identidade e os recantos do Monte da Caparica.
Som, luzes, comunidade: ação!
A ideia de fazer o filme nasceu de uma oficina de cinema comunitário, intitulada Atlas Almada, no âmbito do programa Comunidades em Ação. Antes de ser tornar uma espécie de manifesto, “investido pelas questões políticas de um olhar dos moradores sobre o território, começou por ser um projeto de mediação artística e pedagógica em cinema”, afirma a realizadora Susana Nobre, da Terratreme. O processo arrancou com a captação dos participantes, que foram desafiadas “a criar um percurso de reflexão sobre o cinema e a construção de um filme, ao mesmo tempo que iam aprendendo coisas específicas da linguagem cinematográfica, desde a fotografia ao som, passando pelo argumento”, acrescenta a fundadora da produtora portuguesa.
Durante cerca de um ano, os residentes participaram em várias formações e workshops, orientados por profissionais do cinema, como os realizadores Basil da Cunha e Falcão Nhaga, o ator e encenador Pedro Gil ou os diretores de fotografia Leonardo Simões e Paulo Menezes. “Mesmo tendo sido um período bastante longo, houve sempre um compromisso grande por parte de todos, dispostos a passar três horas em formação numa sala, duas vezes por semana, a debater, ver filmes, fazer ensaios e exercícios”, recorda Susana Nobre.
Foi neste processo que a comunidade deu ideias e opiniões, algumas consensuais, outras largamente discutidas, como aconteceu com a inclusão do bairro da Penajoia no filme. Embora, administrativamente, não integre o Monte da Caparica, alguns participantes insistiram que não deveria ficar fora da película, como Nélson Semedo, “porque lembra-nos que a história pode repetir-se, tantos anos depois, com as pessoas a instalarem-se onde podem, tal como já tinha acontecido no antigo Lazareto do Porto Brandão”. A mesma ideia tem Martina Maher, que justifica a opção “não só pela proximidade física, mas também porque houve o propósito de demonstrar que a habitação ainda é um problema que se estende até aos dias de hoje”. E assim, ficou decidido: no filme, o Penajoia é “irmão e parceiro” de outros bairros do Monte da Caparica, como o do Asilo, o Cor de Rosa, o Amarelo, o Branco ou o conjunto habitacional dos Três Vales.
A escolha do título – “Ali, Aqui” – também teve o contributo da comunidade, em particular do morador Edmilson Furtado, mais conhecido por Sony. “Numa das sessões, ele apareceu-nos com um poema, que acabaria por fazer parte do filme e inspirar o título. Além de bonito, tem vários prismas de leitura e funciona como uma espécie de díptico”, explica Susana Nobre. Isto porque, tanto faz lembrar o passado e o presente do bairro do Asilo, como, ao mesmo tempo, evoca as origens distantes de muitos cabo-verdianos (o ali) que agora residem no Monte da Caparica (o aqui).
O Monte está ali e aqui
O filme começa com imagens do antigo Lazareto de Porto Brandão, complexo que após o 25 de Abril serviu de abrigo a 600 pessoas vindas das ex-colónias, mais tarde realojadas no bairro do Asilo. Ao mesmo tempo, o narrador (um antigo morador) vai desfiando memórias do local, agora em ruínas. “Tanto tempo já passou, mas ainda me lembro dos caminhos”, recorda, lançando o mote para este “filme-percurso”, como lhe chama Susana Nobre, por explorar e cruzar diversos caminhos do Monte da Caparica, tanto físicos como emocionais. De facto, as histórias passam por vários bairros e, dentro deles, por muitos locais que enraízam o espírito de comunidade, como a barbearia, os cafés, o ateliê da costureira ou as aulas de alfabetização, sem esquecer o espaço público, utilizado como cenário de um videoclipe e espaço de brincadeira dos mais novos.
A primeira história tem, precisamente, uma criança como protagonista. Rafa sai de casa para fazer um recado ao pai (comprar vinho para a cachupa do almoço), mas distrai-se com o que vai acontecendo na rua e acaba a deambular pelo bairro, ora passeando com a amiga Teresinha, ora participando na gravação do videoclipe. Pelo meio, o filme mostra outras histórias e personagens, como Nelson (interpretado por Nelson Semedo) que tenta convencer Txidy a cortar-lhe o cabelo; Jamir, que vai encomendar uma galinha a Tofinha; e Sony, o tal poeta-morador que anda pelas ruas à procura de inspiração para o poema “Ali”.
Alguns diálogos são em português, mas a maioria estão em crioulo de Cabo Verde, porque “só assim fazia sentido”, diz Nelson Semedo. Este trabalhador da construção civil, apaixonado pela música e pelas artes urbanas, interpreta um morador de origem cabo-verdiana, mas que nunca foi a África, o que o faz sentir “aprisionado dentro do próprio bairro”. Também ele defende que o filme poderá ajudar a combater o estigma, embora acredite que, esse, nem foi o propósito principal. “Preferimos mostrar as coisas, sem exagerar, ou seja, deixámos um quadro meio pintado, com várias partes em branco, e depois será o próprio espetador a pintar o resto”, diz à s_cities. Mas uma coisa é certa, conclui: “o resultado ajudará sempre a desenhar uma imagem mais próxima daquilo que é o Monte da Caparica e do verdadeiro espírito comunitário deste lugar”.
“Ali, Aqui” teve antestreia em pleno ringue do Bairro do Asilo e depois integrou a programação do festival Doclisboa. Agora, segue em exibição até 3 de junho na Academia Almadense (Almada) e até dia 10 do mesmo mês nos cinemas City Alvalade (Lisboa) e City Setúbal. Em setembro, poderá ser visto no Festival Clarão, em Sintra.