A cidade offline: desligar o telemóvel para ligar ao mundo real

Sociedade

A cidade offline: desligar o telemóvel para ligar ao mundo real

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Offline Club Lisboa e Absent, Fotografia 

Num mundo permanentemente conectado, há cada vez mais pessoas a desligar do digital, nem que seja por algumas horas. Em resposta a esta necessidade, começam a surgir novas comunidades, espaços e atividades na cidade, sempre com uma única condição: o telemóvel fica à porta. Investigadores dizem que a fadiga digital nos faz querer desconectar para reconectar.

Mais de 1000 quilómetros separavam Lilly Parla do telemóvel, irremediavelmente esquecido no carro de uma amiga. Sem poder voltar para trás, a jovem norte-americana chegou à casa dos avós, no Arizona, e descobriu que teria de passar cinco dias longe do smartphone. O que parecia um pequeno pesadelo acabou por dar origem a uma inesperada oportunidade, sem ecrãs, mas com duas agulhas na mão. “Esse acaso permitiu-me desfrutar de momentos de qualidade em família e aproveitei boa parte do tempo para aprender a tricotar com a minha avó”, conta à s_cities, lembrando que aquela viagem foi “um verdadeiro momento de revelação” porque “provou que não é preciso estarmos sempre ligados a tudo e a todos”. Hoje, é ela que mostra aos outros como tricotar, conviver, ler, pintar ou até o silêncio podem ajudar qualquer um a reconectar-se com os outros e consigo mesmo. Mas, primeiro, é preciso desligar o telemóvel.

Há quase um ano que Lilly e a amiga neerlandesa Joëlle Hartog dinamizam o Offline Club Lisboa, uma comunidade que organiza encontros e atividades em vários locais da cidade, umas vezes em bares e restaurantes, outras em jardins e espaços públicos, mas sempre sem a presença de equipamentos digitais. As duas conheceram-se numa sala de espera da Loja do Cidadão e, depois de conversarem sobre o assoberbamento digital que sentiam, decidiram trazer este movimento internacional para a capital portuguesa. A marca surgiu em Amesterdão há cerca de três anos, pela mão de três jovens que viajavam juntos sem telemóveis, e já está presente em 19 cidades mundiais.

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A dinâmica é simples e começa com a entrega de todos os dispositivos móveis, para ficarem guardados numa espécie de cacifo a que chamam “hotel dos telemóveis”. Durante os primeiros 45 minutos ninguém fala, para que cada um possa fazer sozinho aquilo que mais gosta, como desenhar, escrever, tricotar ou mesmo dormir. Depois, o resto do tempo é dedicado ao convívio e à interação, com os participantes a conversarem, dançarem ou tomar uma bebida juntos. Durante esse período, ninguém se lembra dos telemóveis, exceto em breves momentos que trazem à tona a dependência do digital. “Isso acontece mais no início, quando as pessoas vão comprar uma bebida e apercebem-se que não podem pagar logo, porque estão habituadas a fazê-lo com o telemóvel e, ali, precisam de dinheiro ou de um cartão”, lembra a organizadora. Mas, pelo contrário, rapidamente descobrem que “as conversas ficam mais fáceis de iniciar e até se tornam mais fluídas”, acrescenta.

Ao contrário do que acontece nos outros Offline Clubs, em Lisboa mais de metade dos participantes são locais e muitos aparecem sem conhecer ninguém. “Isso apanhou-nos de surpresa porque as outras cidades têm mais membros internacionais. Mas aqui fica demonstrado que toda a gente precisa de tempo offline e não apenas os nómadas digitais. Além disso, embora a maioria tenha entre 25 e 45 anos, também recebemos pessoas na casa dos 50, 60 e até 70 anos”, diz Lilly Parla. Desta mistura de origens, nacionalidades e idades já nasceram várias amizades, muitas delas entre completos desconhecidos. “Algumas pessoas vieram ter connosco a dizer que o Offline Club as salvou da solidão porque passaram a sentir-se menos sozinhas”, recorda a cofundadora da “sucursal” lisboeta. A norte-americana lembra ainda que “os portugueses costumam passar online imensas horas por dia, um desperdício tendo em conta que há tantos momentos bonitos e reais a acontecer à nossa volta”.

A maioria dos eventos do clube são pagos, normalmente entre 8,50€ e 12,50€ por pessoa, e vão desde simples encontros de convívio de três horas (os Offline Hangouts) a noites de quiz, jogos ou ateliês de trabalhos manuais. Mas também há algumas atividades gratuitas em espaços públicos, como passeios ao pôr do sol junto ao Tejo ou raves de leitura que costumam juntar mais de uma centena de pessoas em locais como o Rossio, o Jardim da Estrela ou a Ribeira das Naus. Para o futuro, Lilly e Joëlle ambicionam criar retiros e escapadas offline de um, três e cinco dias e, quem sabe, organizar um grande evento que inspire toda a cidade. Sempre com a ideia original em mente: desligar, abrandar e reconectar.

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A vida real no Príncipe Real

Depois de 12 anos a trabalhar no setor tecnológico, a maioria deste tempo a partir de casa, em frente a um computador ou ao telemóvel, Shalini Choudhary começou a sentir-se “mais solitária do que antes”, talvez por perceber “que estava a perder experiências humanas”. Certa de que não seria a única a passar pelo mesmo, começou a investigar sobre o crescimento da inteligência artificial e do mundo digital e daí partiu para uma pergunta essencial: “O que será que as pessoas vão procurar como alternativa?” Nas várias respostas possíveis encontrou, invariavelmente, o mesmo denominador comum: comunidade. “Quanto mais pensava nisso, mais queria criar um espaço como antigamente, onde as pessoas se pudessem reunir e conversar pessoalmente, e que, ao mesmo tempo, conseguisse ter impacto na comunidade”, diz a imigrante indiana, a viver em Lisboa há 13 anos. Dito e feito. Em sociedade com a amiga Mara Kesnere abriu no início do ano o Absent, um café livre de telemóveis, “e ainda mais do que isso”, situado no Príncipe Real, em Lisboa. “Na realidade, já temos um café e estamos a construir uma comunidade, mas queremos que seja um terceiro espaço, ou seja, um sítio que não é a casa das pessoas, nem a sua área de trabalho, mas um local para a vida real onde podem passar tempo e fazer o que lhes apetece”, explicam as duas fundadoras.

Também aqui, os clientes são convidados a deixar o telemóvel numa pequena bolsa, que fica sempre com eles, mas fechada. A ideia é incentivar formas mais presenciais de convívio e momentos individuais de descontração, sem as distrações do scroll, das notificações e das chamadas. “Antes da inauguração, começámos a pensar ‘e se as pessoas se recusarem a ficar sem os telemóveis ou acabarem entediadas e quiserem ir embora’? Mas, a verdade é que, embora possam estranhar durante uns 15 minutos, depois perdem a noção do tempo e, quando estão de saída, dizem-nos que as horas passaram a correr”, conta Shalini Choudhary. Para se entreterem, os clientes têm à disposição vários jogos, materiais de pintura e Legos, mas também há zonas onde podem, simplesmente, descontrair, ouvir música ou comer algo na cafetaria. Ao mesmo tempo, costuma haver eventos e atividades quase todos os dias, como conversas sobre ciência e filosofia, noites de jogos e comédia, oficinas artísticas, meditação ou tardes de dança.

Quem for apenas à cafetaria não precisa de pagar entrada e tem acesso aos jogos de tabuleiro. Para clientes mais frequentes, é possível fazer uma assinatura mensal para todos os eventos no valor de 15 € (os não sócios pagam 5 € por evento) ou outra que inclui os eventos, a utilização total do espaço e os materiais por 25 €. Em conversa com a s_cities, a cofundadora do café diz que “a ideia é manter o valor das adesões num patamar mais baixo”, para que haja “diversidade no tipo de pessoas” e “não se excluam os habitantes locais, que costumam ter salários mais baixos do que os expatriados”. Ainda assim, a pergunta impõe-se: como lidam com o facto de serem um espaço comunitário, mas cobrarem uma assinatura mensal? As responsáveis começam por relembrar que “a cafetaria está sempre aberta e é gratuita, sem consumo mínimo nem nada”, acrescentando depois que “a outra área é paga porque implica a utilização de muitos materiais de artes e ofícios, papéis, kits de escrita, tricô ou argila”.

Shalini Choudhary, a jovem que decidiu trocar a Índia por Portugal e a imersão tecnológica pela conexão com as pessoas, revela que “a energia de um espaço muda totalmente quando ninguém usa telemóveis”, porque “o tempo passa a pertencer a cada um de nós”. Embora admita que, nos dias de hoje, não faz sentido viver sem tecnologia, defende que é possível criar rotinas diárias capazes de minimizar e contrariar o impacto digital. À primeira vista pode parecer complicado, mas a empreendedora garante que no Absent isso torna-se possível. Ao mesmo tempo, deixa a pergunta: “depois de um dia cansativo de trabalho, haverá algo melhor do que passar umas horas num sítio confortável, única e simplesmente, a relaxar, a colorir e a sorrir?”

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Desconexão digital é necessidade e pretexto

O mundo está cada vez mais conectado e o nosso país não é exceção. De acordo com o relatório “Digital 2026: Portugal”, da DataReportal, cerca de 9,26 milhões de portugueses (89% da população) utilizam a internet e, destes, 98% têm um smartphone. A mesma plataforma revela que os maiores de 16 anos estão ligados 7h33min por dia, enquanto o Eurobarómetro estima que, durante o fim de semana, os adolescentes passam 6,7 horas à frente de telemóveis, tablets, computadores, televisões ou consolas.

Mas também há estudos que indiciam uma maior vontade de desconexão digital, como o “Digital Consumer Trends 2025: Portugal”, da Deloitte, segundo o qual mais de metade dos portugueses (56%) desligou notificações de aplicações e quase um terço definiu limites de tempo de ecrã. Outro trabalho, intitulado “Desconexão Digital e Jovens Portugueses: Motivações, Estratégias e Reflexos no Bem-Estar” mostrou que os inquiridos procuraram autorregular o uso do digital e alguns desconectaram conscientemente depois de ganharem “perceção de que esses meios não traziam benefícios suficientes para a quantidade de tempo que lhes tomavam”. Para Ana Jorge, uma das autoras do estudo e investigadora coordenadora do CICANT (Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias), da Universidade Lusófona, os dados obtidos são sinal “de alguma saturação com o digital, em particular com o ambiente das redes sociais”. Tal facto, acrescenta a especialista em cultura digital, “leva as pessoas a procurar espaços e atividades – ainda que planeadas – onde podem suspender o digital por algum tempo, interrompendo essa fadiga que sentem”.

Esta nova realidade urbana também despertou o interesse de Filipa Neto, aluna de doutoramento da Universidade Lusófona que está a desenvolver um trabalho sobre locais e eventos offline na cidade. Sob orientação de Ana Jorge, começou por identificar várias comunidades e espaços comerciais, como o Offline Club Lisboa e o Absent, mas também atividades ao ar livre, caso de um passeio “livre de internet” no Parque Florestal de Monsanto. Facilmente constatou que “as nossas sociedades hiperconectadas geraram uma necessidade de desconectar do digital para conectar com outras coisas”. Na prática, significa que “as pessoas passaram a querer estar com outras, à procura de comunidade, muitas vezes em atividades relacionadas com as artes, as manualidades ou a natureza”, exemplifica, admitindo que “a desconexão digital acaba por ser um pretexto para fazerem o que mais gostam”. No entanto, a maioria das pessoas que se desconecta quer ter o poder de controlar essa experiência, ou seja, prefere fazê-lo de forma programada e não tanto espontaneamente.

Em entrevista à s_cities, Ana Jorge lembra a faceta comercial deste fenómeno, porque “muitas vezes a desconexão é uma marca, que acaba associada à venda de produtos, mas também de espaços e eventos, quase todos pagos”. Também por isso, acrescenta Filipa Neto, “há uma dimensão de capital, comercial, que, por um lado, acentua a diferença entre quem pode e não pode desconectar-se e, por outro lado, mostra que a própria desconexão é muito comercializada. Ainda assim, ambas as investigadoras consideram benéfico o surgimento de novas comunidades e espaços offline na cidade, porque “acabam por incentivar as pessoas a dar o primeiro passo para uma desconexão digital que muitos procuram”. Como diz Filipa Neto, “não sendo uma resposta estrutural, nem sequer um penso rápido para o problema, funcionam como uma espécie de luzinha daquilo que pode ser uma melhor relação com o digital no futuro”. Porque, cada vez mais, a cidade procura momentos, espaços e oportunidades para desligar do virtual e reconectar-se com o tempo real.

Publicado em 12 Agosto, 2026 - 08:40
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