“A arte faz bem”: Trégua leva integração e “dias coloridos” à cadeia do Funchal

Inclusão

“A arte faz bem”: Trégua leva integração e “dias coloridos” à cadeia do Funchal

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Carolina Santiago, Pedro Freitas e Pedro Sousa, Fotografia 

Todas as semanas, artistas e estudantes universitários entram no Estabelecimento Prisional do Funchal para mostrar que a arte pode ser um caminho para a reinserção social e profissional. O projeto Trégua cria pontes entre reclusos e sociedade civil através de programas de aprendizagem, ações de intervenção pública e oficinas artísticas, como serigrafia, bordado da Madeira ou banda desenhada. Nesta cadeia, desenham-se e costuram-se novas oportunidades.

Miguel Abreu passou 7 anos e 15 dias com “a vida em suspenso”, fechado entre os muros do Estabelecimento Prisional (EP) do Funchal, na Madeira. Durante este tempo, a cadeia foi “um barril de pólvora”, “bastava alguém acordar maldisposto ou desaparecer uma simples mola de roupa para se armar uma grande confusão”. Mas também houve alguns momentos “mais leves”, em que a alegria parecia ter data marcada. Chegava sempre duas vezes por semana, trazida do lado de lá dos portões pelos artistas e formadores do Trégua, um projeto multidisciplinar dedicado à capacitação artística e à reinserção social de pessoas privadas de liberdade.

“Era como se houvesse dois tipos de dias: os coloridos, sempre que havia Trégua, e todos os outros, mais tristes, pintados a cinzento”, explica o ex-recluso, saído em liberdade há meia dúzia de meses. “Naquelas alturas tudo parecia diferente, e até na véspera já falávamos do que iríamos fazer nas oficinas, em vez daquela conversa habitual de recluso, tipo ‘aquele faltou ao respeito ao guarda e agora vai para o castigo’”, recorda à s_cities o agora funcionário do setor da restauração.

O projeto nasceu há cinco anos, pela mão de Catarina Claro e Cristiana de Sousa, coordenadoras da associação Casa Invisível, depois de desafiadas pela câmara do Funchal a pegar numa ideia vencedora do Orçamento Participativo de Portugal. Apesar de habituadas a dinamizar iniciativas de mediação criativa, algumas junto de comunidades vulneráveis, nunca tinham entrado numa prisão, por isso “ao início, muitos achavam que eram loucas e traziam uma missão impossível”, confidencia Miguel Abreu. Hoje, é o primeiro a agradecer-lhes pela “coragem de olharem para aqueles que todos, ou quase todos, esquecem”. Desde 2021, as primeiras quatro temporadas do Trégua já chegaram a 32 pessoas privadas de liberdade (24 homens e 8 mulheres) e envolveram mais de 42 artistas, estudantes universitários e outros colaboradores.

As duas responsáveis nunca deixaram de acreditar na possibilidade de “criar algo maior do que aqueles muros altos”, através da capacitação pessoal, social e artística, gerada pela interação entre reclusos e elementos externos à cadeia. “A arte é a maneira como nós desconstruímos o preconceito, é a nossa forma de fazer a revolução e dar uma nova oportunidade, ou tantas quantas forem necessárias, até a sociedade entender que as pessoas não são os seus erros”, diz a coordenadora executiva, Catarina Claro. Quem beneficiou do projeto, como Miguel Abreu, não podia estar mais de acordo, acrescentando que “a arte é um mundo em que nos podemos exprimir, sem pensar em mais nada, e esse poder de fazer esquecer os problemas ajuda bastante num meio tão difícil como um EP”.

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Miguel Abreu, durante uma oficina de costura, diz que os dias na cadeia ficaram “mais coloridos” graças ao projeto Trégua

O ex-recluso era, quase sempre, um dos primeiros a inscrever-se nas oficinas e atividades que o Trégua organizava na cadeia, incluindo as de costura e de bordado da Madeira, propostas aparentemente inusitadas para um meio tão masculino como a prisão. “Isso até foi um pouco engraçado, porque quando soubemos o que íamos fazer começámos todos a rir. Eu também fiquei um pouco reticente, vou ser sincero, pois sabia pela minha avó que o bordado era muito trabalhoso. Mas a verdade é que, depois, acabámos por gostar”, admite o madeirense, de 38 anos, entre sorrisos.

Ainda assim, nenhuma oficina o cativou tanto como a de serigrafia. Não só pela “bondade e humanidade” do formador, já falecido, mas também porque encontrou na wearable art a melhor forma de se exprimir. “Por exemplo, quando cada um de nós teve de escolher um animal para estampar em t-shirts, eu decidi que seria a fénix. Identifico-me muito com ela e aquelas sessões fizeram-me lembrar que também eu tinha de renascer das cinzas de alguma maneira”, conta Miguel Abreu. Cristiana de Sousa lembra-se bem do desafio que lançou aos reclusos, incentivando-os a “fazer os desenhos do seu animal sem olharem para o papel, porque nos interessa sempre muito a liberdade do traço”. Além da fénix, houve quem escolhesse um tigre ou um panda, por exemplo, “e esses animais acabaram por tornar-se referências visuais dos participantes que, entretanto, foram plasmadas num mural de arte urbana, criado em conjunto no estabelecimento prisional [foto abaixo]”, explica a coordenadora artística.

Estas sessões também deram corpo a uma linha própria de merchandising, com t-shirts e sacos de pano, que, sobretudo no início do projeto, teve o condão de ser “um excelente mediador, mostrando aos outros o que estava a ser feito e aproximando-os da realidade prisional, porque ninguém fala sobre prisões”, comentam as responsáveis da Casa Invisível, associação cultural madeirense sem fins lucrativos. “É por isso que, além de criar novas oportunidades, o Trégua convida a sociedade civil a olhar para estas pessoas como nós olhamos, de igual para igual, sempre com respeito e encontrando o seu maior potencial em cada uma delas”, conclui Catarina Claro.

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Emoldurado a arame farpado, mural do Estabelecimento Prisional do Funchal lembra que “Não somos os nossos erros”
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Participantes bordaram vários painéis de ilustração têxtil sob orientação da designer Rita Lima Lemos

Novas oportunidades para desenhos e pessoas

Tal como aconteceu com os outros artistas do Trégua, também o ilustrador Samuel Jarimba nunca tinha entrado numa cadeia. Assim, desde o primeiro contacto que procurou deixar as ideias pré-concebidas lá fora e “normalizar as interações ao máximo”, umas vezes com piadas, outras com perguntas, sem deixar de ir “apalpando o terreno” para conhecer a sensibilidade de cada participante. Esta dualidade entre perceção e preconceito, ou seja, “o confronto entre o que se está à espera e que se encontra”, ainda hoje o faz refletir, porque “o projeto traz o mérito de subverter as ideias que temos, mostrando a quem está no exterior como é o mundo e as condições em que os reclusos vivem”, afirma o artista madeirense.

Durante um mês, foi responsável pela oficina de ilustração e banda desenhada, onde desafiou os participantes a explorar novas formas de contar histórias e a sair da sua zona de conforto. Umas vezes desenhavam em cima das mesas, outras no chão ou numa cadeira, por vezes com o pulso, mas também com a rotação do cotovelo ou do ombro. Ao longo das sessões havia quase sempre uma mensagem subliminar ou uma metáfora associada ao propósito artístico, para que pudessem “olhar para a folha de papel sem limites, perder o medo de arriscar e de encarar as coisas de forma não necessariamente literal”. Por exemplo, no último exercício, utilizou-se um recorte para partilhar com um grupo diferente e outro que tinha de ser virado ao contrário, para depois se começar tudo de novo. Desta forma, “procurou-se criar uma ideia de comunidade entre eles, mas também lembrar a importância dos recomeços. Porque, no desenho, como na vida, é possível contar uma história diferente, se estivermos dispostos a uma nova oportunidade”, lembra Samuel Jarimba.

Os desenhos desta oficina de ilustração, em conjunto com as impressões da oficina de serigrafia e os trabalhos da oficina de costura vão dar origem a uma grande instalação que será publicamente apresentada durante o festival Fractal, a realizar entre os dias 25 de setembro e 4 de outubro na cidade do Funchal. “No interior, haverá uma mesa corrida onde os visitantes poderão experimentar as mesmas técnicas e conversar com as equipas de mediadores sobre o projeto, a vida em reclusão e a reinserção social porque, no fundo, acreditamos que este processo só funciona se envolver toda a gente”, revela Catarina Claro. Como explica a responsável da Casa Invisível, a ideia é trazer o projeto, cada vez mais, para o espaço público, a exemplo do que já tinha acontecido na Feira do Livro do Funchal, onde foi criado um grande mural com bordados feitos pela sociedade civil, a partir de desenhos dos reclusos.  

No âmbito da última edição do Fractal, o artista e arquiteto Gustavo Freitas também esteve na cadeia do Funchal para uma oficina à volta do tema “Pensar a Cidade”. Nesse encontro, os reclusos foram convidados a projetar uma cidade ideal, que ultrapassasse os limites físicos do espaço de reclusão. Na prática, mais do que um exercício técnico, a atividade serviu como reflexão profunda sobre o território e a desigualdade na organização do espaço público. “Essa oficina foi muito rica e até bastante curiosa porque lembro-me de os participantes não deixaram de pensar a cidade como estabelecimento prisional. Na altura, agarrámos nessa ideia e lançámos um conjunto de questões sobre a efetiva necessidade de existir, ou não, um lugar onde as pessoas são privadas de liberdade”, recorda Catarina Claro. Isto porque, como acrescenta Cristiana de Sousa, “na verdade, acreditamos que podemos viver sem prisões se, de facto, a sociedade for mais justa e equilibrada”.

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Reclusos exploraram novas formas de contar histórias durante a oficina de ilustração e banda desenhada
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Projeto já envolveu 32 pessoas privadas de liberdade e dezenas de artistas e estudantes universitários

A arte é ponte e empatia

Leonor Garcês não conseguia esconder o nervosismo e a ansiedade quando entrou pela primeira vez no Estabelecimento Prisional do Funchal, “não por medo das pessoas que ia conhecer”, mas porque “estava prestes a fazer parte de uma experiência totalmente diferente, à porta de novas realidades”. A jovem, de 20 anos, foi uma das alunas da Universidade da Madeira a querer participar num conjunto de oficinas artísticas que juntou, entre muros, reclusos e estudantes do curso de design.

Antes de se encontrarem presencialmente, já tinham trocado correspondência e desenhos, por isso, o primeiro contacto acabou por ser “muito leve e natural”, feito de curiosidade e de um inesperado à-vontade. Era como já se conhecessem sem nunca se terem visto. “A certa altura, de tão imersa nas dinâmicas de trabalho, já nem me lembrava que estava numa prisão. Durante um intervalo, até cheguei a comentar com uma colega que nem sequer pensámos no que eles tinham feito para estar ali, porque, de facto, isso não importava”, conta à s_cities.

Desses encontros, realizados durante um mês, a estudante reteve “a tremenda vontade de aprender de todas aquelas pessoas privadas de liberdade”, a par de uma surpreendente boa-disposição. Na verdade, enquanto construíam pontes artísticas, uns e outros “ensinavam algo de novo à outra parte”, cada um à sua maneira: “eu costumo dizer que há uma certa beleza em aprendermos ao mesmo tempo. Isso aconteceu, por exemplo, na oficina de serigrafia, que eles já tinham feito e nós não, e que acabou por resultar numa interessante partilha de conhecimentos e aprendizagens”.

Antes de Leonor, outros estudantes universitários já tinham participado em oficinas conjuntas e um dos grupos chegou a encontrar-se no exterior, depois de a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) ter autorizado a saída de alguns reclusos. Juntos, realizaram uma oficina aberta à cidade, coorientada por alunos e por pessoas privadas de liberdade. Resultado de uma parceria entre a Casa Invisível e a Universidade da Madeira, a DGRSP, o Município do Funchal e o Fractal, o Trégua conta ainda com o financiamento do PARTIS & Art for Change, um programa da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundación "la Caixa" que apoia projetos artísticos comunitários dedicados à inclusão social e à cidadania em Portugal.

Leonor Garcês gostou tanto da experiência que já pediu para regressar na próxima ronda de oficinas. “Com esta participação, apercebi-me da importância de ouvir e conhecer um pouco da história destas pessoas. Pela primeira vez, parei para pensar no assunto e agora entendo que pode ser uma boa maneira de abordar um tema importante, tantas vezes esquecido”, defende a estudante de design. Além disso, lembra que o projeto ajuda a “fornecer um conjunto de ferramentas sociais e até profissionais que podem vir a ser úteis no dia em que saírem em liberdade”. Até lá, acredita, os dias no Estabelecimento Prisional do Funchal vão ser um pouco mais felizes, graças a uma iniciativa em que, como ela diz, “a arte cuida, traz empatia e faz bem”.

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Publicado em 26 Agosto, 2026 - 08:09
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