
Inclusão
Cidades interculturais abraçam diversidade e combatem discurso de ódio
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Carlos Araújo, Sara Cunha, Fotografia
Numa altura em que a polarização e a intolerância ganham terreno no espaço público e digital, as cidades assumem um papel decisivo no acolhimento de pessoas migrantes e na integração das minorias. Cidadãos, associações locais e municípios tornam-se agentes ativos de inclusão e chegam à comunidade através de múltiplas formas. Que pontes conseguem criar o abraço de uma equipa de mediadores, os projetos de uma rede de cidades e o olhar de um fotógrafo cigano?
Jamila Rezayee é uma afegã que só em Portugal começou a sentir “o que significa viver com mais liberdade como mulher”. Já a angolana Julieta Fuxi Vaz apaixonou-se pelo Porto porque é um lugar “onde toda a gente fala com toda a gente”. Na mesma cidade, Claire Sivier, pessoa negra e queer, impulsiona um grupo de mulheres onde “umas cuidam das outras”. As narrativas destas e de outras migrantes cruzam-se no Mapa Delas, uma fanzine composta por textos e ilustrações que revela “saberes, identidades e a pluralidade de existências na cidade”, enquanto dá a conhecer os percursos, as lutas e as geografias sentimentais das participantes.
A publicação funciona como uma espécie de mapeamento afetivo e artístico, construído a partir dos relatos de 12 mulheres estrangeiras a residir no Porto e ilustrando de forma coletiva a relação que criaram com o território. Foi lançada pela associação Pele no âmbito da Equipa de Mediadores Municipais e Interculturais do Porto, um projeto implementado pela autarquia para promover a inclusão e a coesão social na cidade. Desde 2019 que tem por missão apoiar as pessoas migrantes residentes no concelho (são já mais de 57 mil) e facilitar a integração das comunidades ciganas, sobretudo nas escolas e no mercado de trabalho.
Acreditando que as relações de proximidade são a melhor forma de chegar às comunidades, a câmara municipal criou parcerias com várias instituições locais, como o Espaço T, a Associação Asas de Ramalde, a JRS Portugal (Serviço Jesuíta aos Refugiados) e a Associação de Ludotecas do Porto. Da parceria com esta última associação nasceu, por exemplo, um projeto reconhecido como boa prática pelo Programa Cidades Interculturais, do Conselho da Europa: o jogo V.O.Z. Criado ao longo de três anos com alunos de uma escola local, este recurso lúdico-pedagógico resultou de várias sessões onde os jovens discutiram temas como a igualdade de género, os direitos humanos e o diálogo intercultural.
No âmbito da Equipa de Mediadores Municipais e Interculturais surgiram ainda outros projetos, como uma Academia de Mediação, um e-book de capacitação em mediação intercultural, um clube de interculturalidade e um conjunto de oficinas criativas. No dia a dia, os mediadores atuam como facilitadores linguísticos e burocráticos, capacitando os cidadãos para o acesso a direitos fundamentais como a saúde, a habitação ou o emprego.
Cidades dizem não ao discurso de ódio
Tal como o Porto, outras cidades nacionais têm procurado promover ativamente a inclusão, o diálogo e a diversidade local. Os principais desafios são comuns a todas, por isso várias autarquias e uma freguesia decidiram trabalhar em conjunto através da Rede Portuguesa das Cidades Interculturais (RPCI). Formada em 2012, surgiu a partir do Programa Cidades Interculturais, do Conselho da Europa, e é composta por 21 membros: Albufeira, Amadora, Barcelos, Beja, Braga, Cascais, Coimbra, Funchal, Lisboa, Loures, Odemira, Oeiras, Portimão, Porto, Santa Maria da Feira, Setúbal, Vila Nova de Famalicão, Vila Nova de Gaia, Vila Verde, Viseu e a freguesia portuense de Paranhos.
Ao querer fortalecer a ligação entre os governos locais e a comunidade, a rede trabalha diretamente com os municípios e as freguesias para “ajudar a reforçar as competências destes organismos na promoção de uma lente intercultural de 360 graus, considerando que essa será a abordagem que melhor promove a inclusão e a diversidade nos territórios”, explica a coordenadora da RPCI, Carla Calado. Para isso, promove a capacitação de atores-chave na área da interculturalidade, como os técnicos municipais, por exemplo através de ações de formação, seminários ou ferramentas de apoio aos programas locais. Permite ainda a colaboração e os projetos de parceria, não só entre as cidades da rede nacional, mas também com as mais de 160 de todo o mundo que integram o programa internacional.
Entre eles destaca-se o Words Matter, projeto anual da RPCI que envolve as cidades no combate ao discurso de ódio, através de um consórcio que integra quatro municípios portugueses: Barcelos, Portimão, Porto e Viseu. “As pessoas e as cidades têm sentido que este é um problema crescente, ainda para mais com a inteligência artificial e a propagação rápida das fake news, por isso, procuramos responder a uma pergunta: 'Como é que podemos, efetivamente, ter estratégias de combate a estas questões? ', explica Carla Calado. A resposta da rede tem chegado através da partilha de práticas entre cidades, formações em competências interculturais e combate ao discurso de ódio, webinários, um podcast e diversas ações de sensibilização.
Outro projeto em curso é o FAIR (Fostering Awareness and Interculturalism with Roma communities in European cities), dedicado à integração e combate à discriminação das comunidades ciganas. Barcelos, Cascais, Oeiras e Viseu são os municípios portugueses envolvidos. Já o STAND (Strengthening Town's Activation for New Narratives on Diversity) destina-se a apoiar as cidades europeias na construção de narrativas que valorizem a diversidade. Neste caso, “Barcelos e Viseu decidiram trabalhar as narrativas que envolvem as comunidades ciganas e Vila Verde criou uma exposição de fotografia com o slogan 'Somos Todos/as Migrantes' [ver texto abaixo), enquanto Loures auscultou os jovens do concelho e estes quiseram abordar as narrativas relacionadas com os seus bairros”, recorda Teresa Leitão, coordenadora destes dois projetos. A ligação da rede ao Programa Cidades Interculturais possibilita ainda a participação dos municípios portugueses em várias ferramentas do Conselho da Europa, como o ICC Index, uma espécie de raio-x que avalia as diversas áreas de intervenção local. Oeiras foi o último a receber a visita dos peritos internacionais, que elogiaram a capacidade da autarquia em envolver a sociedade civil nos projetos sobre estas temáticas.
A coordenar a RPCI há oito anos, Carla Calado diz que a rede teve o condão de “tornar as cidades mais autónomas, passando a ter mais ideias e a estar mais motivadas para trabalhar”. Isto porque “às vezes, não é fácil trazer estes temas, até dentro dos próprios municípios”, garante a especialista em competências interculturais, diversidade e inclusão. “Por exemplo, uma cidade disse-nos que se não fossem os nossos projetos, eles não teriam nenhuma intervenção nesta área”, concretiza. O futuro, acredita, passa cada vez mais pela colaboração e por iniciativas comuns que motivem os municípios a investir no desenvolvimento de estratégias interculturais. Juntas, as cidades tornam-se mais capazes de gerir de forma positiva toda a diversidade que existe em cada uma.
Arte é “elefante na sala” que faz pensar
Cada vez mais cidades fazem da arte e da cultura ferramentas de inclusão social e valorização da diversidade, tornando-as parte fundamental nas estratégias locais de proximidade. Não faltam exemplos por todo o país, incluindo nos municípios pertencentes à Rede Portuguesa das Cidades Interculturais. É o caso de Barcelos, que, com o apoio do projeto STAND, levou para a rua uma exposição fotográfica itinerante, intitulada Viagem Cigana. Composta por fotos de Osvaldo Grilo e Luís Carvalhido, além de autorretratos de crianças da comunidade cigana local, tem percorrido as freguesias deste concelho minhoto para criar oportunidades de encontro e reflexão em pleno espaço público, aproximando a população local dos temas da interculturalidade e do combate à discriminação. “Há muito que o preconceito está lá todo, por isso, estas fotos servem para clarificar algumas dúvidas que ainda existem na sociedade. No fundo, é uma espécie de elefante na sala que faz pensar e desconstrói”, defende Osvaldo Grilo, mais conhecido por Celinho.
Em conjunto com Natália Serrana, o artista de etnia cigana assina ainda outra exposição de fotografia, chamada Identidades Romani, que tem percorrido muitas cidades do país, como o Porto, Coimbra, Figueira da Foz, Torres Vedras ou Borba. Para o coautor, esta itinerância revela “um sinal positivo, de inclusão e abertura, que se encontra em alguns municípios e freguesias”, embora faça questão de dizer que “muitos outros não querem saber destes assuntos e só escorraçam as pessoas, sobretudo depois de surgir um movimento que anda por aí a destilar ódio pela comunidade cigana”. Pelo contrário, Barcelos tem sido uma porta aberta aos projetos culturais que envolvem a comunidade cigana. Além das recentes exposições de fotografia, a cidade acolheu também o projeto A História do Ciganinho Chico, um livro infantil escrito por Bruno Gonçalves que retrata a história e a cultura do povo cigano, e cujo videoclipe foi gravado num acampamento do concelho.
Também Vila Verde tem trabalhado as temáticas da interculturalidade e da coesão social através de projetos artísticos e culturais participativos que envolvem a comunidade. Um dos mais recentes é a exposição Somos Todos/as Migrantes, igualmente realizada no âmbito do projeto STAND. A mostra junta relatos de imigrantes que escolheram a vila minhota para viver, mas também de emigrantes que, outrora, deixaram o concelho em busca de melhores oportunidades. Antes deste, o projeto Habito o Mundo criou um grande mural de arte urbana na vila, pintado por jovens refugiados e migrantes de várias nacionalidades. Criado com a orientação dos artistas Hazul e Godmess, resultou de várias sessões de partilha e escuta ativa e envolveu ainda as cidades do Porto, Braga e São João da Madeira.
Por sua vez, a exposição Vozes Visuais: Retratos de Pertença levou os jovens do concelho a refletir sobre identidade, diversidade e sentimento de pertença, depois de desafiados pelo projeto NET- IDEA (Network of European Towns for Interculturalism, Diversity, Equality and Anti-Discrimination). O processo criativo foi despoletado por três questões - o que os faz sentir em casa; onde encontram acolhimento e identidade; e onde se deparam com a exclusão – e, a partir daí, os participantes captaram imagens que mostram a sua perceção e realidade diária. No final, a foto de cada um foi associada a um testemunho áudio que permitiu revelar as histórias e testemunhos que deram origem às fotografias.
Embora seja, por vezes, palco de conflito e intolerância, o espaço urbano é, na sua essência, um território propício à inclusão e onde a diversidade pode ser vivida e protegida diariamente. Também por isso, os municípios que acolhem e cuidam de todas as suas comunidades, sem exceção, têm o poder de transformar a cidade num território de pertença. Projetos como a Equipa de Mediadores Municipais e Interculturais do Porto ou a Rede Portuguesa das Cidades Interculturais procuram torná-lo possível e estimular uma interação positiva entre todos. Porque, como diz Carla Calado, da RPCI, “é fundamental que toda a gente possa sentir que pertence a uma cidade sem abdicar das suas heranças culturais. Não se pretende a assimilação, mas sim a integração".