Ribeiras urbanas: nas “veias” das cidades corre saúde, risco e arte

Natureza

Ribeiras urbanas: nas “veias” das cidades corre saúde, risco e arte

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Francisca Moreira, Tiago Cerveira e Joana Corker, Fotografia 

O que dizem as ribeiras urbanas sobre a nossa saúde? A pergunta dá o mote a um projeto científico que junta Coimbra a várias cidades europeias com o objetivo de demonstrar a influência dos ecossistemas ribeirinhos no bem-estar das populações. Entre sinais de alarme e boas notícias, o OneAquaHealth deixa várias propostas aos municípios e mostra que a arte também pode ser ferramenta de sensibilização. Deste encontro surge agora o documentário “Veias de Água”.

As cidades nasceram e cresceram à volta dos cursos de água que as atravessam. Se os grandes rios foram protagonistas do desenvolvimento urbano, as ribeiras moldaram, de forma mais discreta, o quotidiano de muitas comunidades. Durante séculos, serviram para lavar o corpo e a roupa, regar os terrenos à volta e dar algum alimento, mas a crescente urbanização fez com que muitas acabassem esquecidas, tapadas ou poluídas. Ainda assim, estes ecossistemas ribeirinhos continuam vitais, tal como procurou demonstrar o projeto europeu OneAquaHealth.

Liderado pela Universidade de Coimbra, reuniu 14 parceiros de 10 países com o propósito de estudar a interligação entre a saúde das ribeiras urbanas e a saúde e o bem-estar das populações à volta. Para isso, os investigadores escolheram cinco cidades – Coimbra, Benevento (Itália), Toulouse (França), Gante (Bélgica) e Oslo (Noruega) – e, em cada uma delas, recolheram dados de 20 ecossistemas. Depois, correlacionaram estas informações com indicadores humanos para perceber o que diz a saúde (ou a falta dela) destes cursos de água sobre a saúde de pessoas, animais e plantas.

Os resultados revelaram uma contaminação por medicamentos de consumo humano em 91% dos locais analisados, enquanto 79% continham uma mistura de vários. Só em Coimbra, foram detetados 14 fármacos diferentes, com destaque para anti-hipertensores, anticonvulsivos (usados para a epilepsia, por exemplo) e antidepressivos. Mas os sinais de alarme não ficam por aqui. Como explica a coordenadora do projeto, Maria João Feio, “também se estudou a presença de um grupo de mosquitos cuja abundância está associada a ecossistemas degradados, e em que a sua picada aumenta a disseminação de doenças, como a malária, a dengue ou o vírus do Nilo Ocidental”. Outros fatores de risco são “as bactérias patogénicas encontradas em pedras e sedimentos, mas que podem ser transferidas para o homem, por exemplo, através do consumo inadvertido de água ou de alimentos regados por ela”, acrescenta a investigadora da Universidade de Coimbra e do MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente.

Em contraponto, os autores do estudo destacam algumas boas notícias, como o facto de terem encontrado várias espécies ameaçadas, nomeadamente peixes e anfíbios. O mesmo pode significar que os ecossistemas mais saudáveis conseguiram filtrar contaminantes perigosos (caso dos fármacos), atenuando-os de forma natural. Além disso, sublinham a importância destes cursos ribeirinhos para a melhoria da qualidade do ar e para a regulação térmica, sem esquecer os efeitos positivos na saúde mental. “Também quisemos demonstrar este benefício para as pessoas das cidades, habitualmente mais stressadas, porque estão a usar um serviço terapêutico de bem-estar e de relaxamento, que leva a uma diminuição da ansiedade e da pressão arterial, já para não falar das vantagens da atividade física em zonas como estas”, afirma Maria João Feio, lembrando os relatos de muitos moradores.

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Maria João Feio, coordenadora do OneAquaHealth, defende o restauro e a renaturalização das ribeiras como uma medida de saúde pública para o futuro das cidades

Uma vez demonstrado que a degradação das ribeiras urbanas pode ter impacto no bem-estar e na saúde humana e animal, o OneAquaHealth desenhou uma espécie de plano de ação para reforçar a proteção destes ecossistemas e promover uma abordagem de Saúde Única (One Health). À cabeça do Policy Brief surgem medidas baseadas na natureza e o imperativo de restaurar as ribeiras, recuperando as galerias ripárias (vegetação à volta), renaturalizando os canais e eliminado as margens artificiais de betão, sempre que possível. Pede-se ainda o reforço da monitorização ambiental e a melhoria do saneamento e tratamento de águas residuais. Também por isso, Maria João Feio defende que o restauro das ribeiras deve ser encarado como “uma medida muito importante de saúde pública, até porque se enquadra muito bem neste conceito de trazer a natureza para as cidades”. Como faz questão de lembrar, “apesar das pessoas olharem para uma ribeira e verem uma linha de água pequenina, ela é maior do que parece, porque se estende por todo o território e, ao drenar para um rio, influencia também a qualidade da sua água”. 

Este projeto europeu desenvolveu, igualmente, várias soluções tecnológicas que, em conjunto, formam um sistema de apoio à decisão, particularmente útil para as autarquias e gestores políticos. A ele junta-se uma plataforma digital, alimentada por Inteligência Artificial (IA), que funciona como um "cérebro preditivo". Na prática, “através de técnicas de machine learning conseguimos prever, por exemplo, o que iria acontecer aos mosquitos em situação de alterações climáticas, ou o que pode mudar num ecossistema caso seja implementada uma determinada medida de restauro”, revela Maria João Feio.

A coordenadora do estudo destaca ainda a possibilidade de qualquer pessoa contribuir para a vigilância das ribeiras e apoio à investigação científica, através de uma aplicação de Ciência Cidadã que permite aos moradores partilhar, em tempo real, informações sobre o estado das ribeiras, fotografias e comentários sobre a relação que têm com elas. Desta forma, as informações inseridas na app tanto podem servir para os cientistas “analisarem com mais frequência a qualidade dos ecossistemas, mesmo à distância”, como para “perceberem a diferença entre a perceção das pessoas e os dados mais objetivos”.

Quatro anos depois do lançamento, o trabalho do OneAquaHealth termina no final de 2026, mas Maria João Feio acredita que as ferramentas e as estratégias apresentadas terão continuidade em muitos municípios, incluindo Coimbra, que passou a estar “bastante sensibilizada para estas questões”. Ainda que de forma tímida, a Ribeira da Madrigueira, por exemplo, mostra que a renaturalização pode começar através de pequenos passos, como já aconteceu com a substituição de plantas invasoras por espécies autóctones de vegetação ribeirinha. A saúde da cidade agradece. 

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O OneAquaHealth une Coimbra a várias cidades europeias para demonstrar a relação entre as ribeiras e a saúde das populações. Embora discretas, dizem muito sobre o nosso bem estar

A ribeira é um palco

A arte também desempenhou um papel marcante no OneAquaHealth, ao tornar-se uma ferramenta de comunicação e de envolvimento comunitário. Esta missão foi entregue à Marionet, uma companhia teatral de Coimbra que há muito se dedica ao cruzamento entre criação artística e ciência. Daqui nasceu a “Peça para Rios”, um espetáculo apresentado ao longo das margens da Ribeira da Madrigueira, em Coimbra, também conhecida como Ribeira do Vale das Flores. “Decidimos imaginar que os intérpretes eram investigadores a registar dados dentro deste curso de água e que, pelo caminho, iam falando das suas características e da importância do seu estado natural”, revela o encenador e diretor artístico, Mário Montenegro. Enquanto guiavam o público, as personagens contavam histórias sobre o passado do local e mostravam as transformações que sofreu, evidenciando o contraste entre a parte naturalizada, onde agora crescem amieiros e freixos, e o canal artificial, que, a dada altura, passa a estar tapado pelo betão.

No início do processo criativo, a companhia entrevistou e acompanhou o trabalho dos investigadores, mas também falou com várias pessoas que habitam junto a ribeiras de Coimbra, perguntando-lhes que relação têm ou tiveram com estes ecossistemas. Entre os testemunhos “houve quem falasse do tempo em que usavam as águas para regar ou lavar a roupa e, nessa altura, esticavam as mantas e os lençóis em grandes zonas de relva”, enquanto outros lembraram que ali “se pescavam enguias à noite, que estavam escondidas nas raízes das árvores”, exemplifica Mário Montenegro. Alguns entrevistados mais jovens dizem que continuam a usufruir destas zonas verdes, por exemplo, para colher ervas ribeirinhas ou passear e brincar com os filhos.

O final da “Peça para Rios” aponta possíveis futuros para a Ribeira da Madrigueira, numa visão otimista, que imagina o ecossistema envolvente a ser transformado numa extensão de um centro de saúde, utilizado como zona terapêutica e contribuindo para o bem-estar das populações. “É essa a vantagem de fazer teatro. Apesar de termos apoiado a dramaturgia num protocolo científico, não temos de ser objetivos. Podemos inventar, ser imaginativos e apontar novas possibilidades, falando das pessoas e esperando um futuro melhor”, concretiza o diretor da Marionet.

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A “Peça para Rios”, criada pela companhia Marionet, transforma as margens da Ribeira da Madrigueira num palco vivo
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A recolha de testemunhos e memórias dos moradores serviu de base à dramaturgia do espetáculo teatral

Da “Peça para Rios” surgiu também um documentário que procura levar a mensagem do projeto até muito para lá das margens da Ribeira da Madrigueira. Realizado por Tiago Cerveira e produzido pela Marionet, o filme “Veias de Água - Redescobrir os sistemas ribeirinhos urbanos” estreia a 20 de outubro no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, e além de querer chegar a festivais internacionais, também será apresentado pelos outros parceiros do OneAquaHealth. O plano inicial era fazer algo breve, que mostrasse a produção e a apresentação do espetáculo de teatro, mas a ideia do realizador mudou radicalmente quando se apercebeu da riqueza que as conversas com os moradores trouxeram às gravações. “Com o decorrer das entrevistas, constatámos que elas ofereciam um conjunto valioso de questões e disciplinas, da sociologia à antropologia, passando pelos temas ambientais, que transcendiam apenas o making-of da peça”. É por isso que, em vez dos 15 minutos previstos inicialmente, o documentário passou a ter 50.

O documentário acaba por ser “um filme de manifesto, de alerta”, admite o realizador, lembrando como “as ribeiras estão completamente ao abandono, com galerias ripárias cheias de mato e dominadas por espécies invasoras, o que traz uma tristeza muito grande a quem ali criou memórias”. O objetivo passa, assim, por sensibilizar os decisores e a comunidade, despertando interesse para um problema que raramente ocupa o espaço mediático e a própria atenção da maioria das pessoas. Afinal, como diz Tiago Cerveira, “estamos a maior parte da nossa vida dentro do carro, passando por cima e ao lado de linhas de água, mas raramente reparamos que há ali uma ribeira, com vida e nutrição para fauna e a flora, mas em que nós também podemos fazer parte”.

O realizador diz ser um privilégio “poder encapsular memórias de vivências que dificilmente voltarão a acontecer”, como lavar a roupa ou tomar banho naquelas ribeiras. São elas “as veias” que dão nome ao filme, acrescenta Mário Montenegro, evocando a imagem de um mapa com a rede hidrográfica da região, “em que o território surge repleto de linhas, veias de água”, por vezes discretas e silenciosas, mas sempre vitais. “Ali corre vida, a vida de algo fundamental para o homem e para as cidades”, conclui. 

Publicado em 19 Outubro, 2026 - 12:20
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