Lisboa volta a brincar na rua

Sociedade

Lisboa volta a brincar na rua

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
J.F. Arroios, Fotografia de destaque
 

Numa cidade onde as crianças passam cada vez mais tempo fechadas em casa, emergem várias iniciativas que procuram trazê-las de volta ao espaço público. O Brincapé, o Brinca Bairro e as Ruas Abertas são três exemplos que aproveitam qualquer cantinho, parque ou recreio para criar uma Lisboa mais amiga das crianças. Porque os miúdos precisam de rua.

Brincapé

Oferecer mais tempo, mais espaço e mais diversidade de brincadeira é a missão do Brincapé, iniciativa criada em 2018 pela APSI (Associação para a Promoção da Segurança Infantil) e pela Associação 1,2,3 Macaquinho do Xinês. Desde então que chama as crianças e as famílias para a rua, lembrando-as que brincar ao ar livre pode ser divertido e seguro, ao mesmo tempo que procura envolver a comunidade, tantas vezes dividida entre o aplauso e o receio de perder lugares de estacionamento.

A todos, o consórcio tem demonstrado que brincar ao ar livre é um direito das crianças e que “a solução nunca é retirá-las da rua por causa da perceção de perigo, mas fazer precisamente o inverso e criar condições para que possam desfrutar do enorme potencial do espaço público”, defende Sandra Nascimento, presidente da APSI. A responsável lembra que “os mesmos pais que começam por ser queixar do estacionamento, depois até vêm agradecer a felicidade dos filhos ao brincar” e revela como é surpreendente ver a participação dos adultos nas brincadeiras. “Ao início, muitos nem conseguem sair dos passeios, de tão formatados que estão, mesmo numa rua sem carros, mas depois juntam-se aos filhos e, se calhar, até criam dinâmicas que não costumam ter em casa”, recorda à s-cities.

Este envolvimento familiar verifica-se, por exemplo, na iniciativa “Ruas que Brincam”, que começa sempre com um encerramento programado e pontual do trânsito automóvel. O objetivo é trazer mais convívio à comunidade, mas também sensibilizar para os benefícios da mobilidade ativa, por isso nunca faltam bicicletas, trotinetes e patins entre os jogos e atividades à disposição. Esta ação do Brincapé já chegou a vários pontos de Lisboa, tal como as chamadas “Incubadoras de Brincar”, que fazem de uma simples caixa de madeira um espaço privilegiado de brincadeira. “Lá dentro estão sempre materiais soltos, como restos de tecidos ou tachos, ou seja, coisas que já não servem na vida funcional dos adultos, mas que para as crianças podem despertar um imaginário especial”, revela Rita Frade, da 1, 2, 3 Macaquinho do Xinês. “E se elas nos dizem que é lixo, nós lembramos sempre que esta tralha é brincadeira antes de ser lixo”, acrescenta.

Imagem
Foto: Brincapé

Entre as várias iniciativas da associação, a mais regular é a “Brincapé, Gil”, já que todos os sábados abre os portões da Escola Secundária Gil Vicente, na Graça, e transforma as áreas exteriores num espaço intergeracional para brincar e conviver. Aqui, os visitantes encontram um parque lúdico-educativo de bicicleta, zonas de brincadeira, campos desportivos e diversas oficinas (como artes plásticas ou música), além de uma agrofloresta com animais do campo e de uma horta urbana gerida pela cooperativa Rizoma. “A toda esta diversidade junta-se ainda o facto de ser um espaço vedado, o que acaba por criar uma espécie de refúgio para as crianças, longe dos carros, o que também tranquiliza os pais”, admite Sandra Nascimento. Já Rita Frade sublinha o propósito de sempre: “oferecer liberdade, encontros e movimento a toda a comunidade”.

Outros projetos do Brincapé são também o “Manual Rua é Saúde - Boas Práticas o um Espaço Público das Crianças”, com ilustrações de Marta Cores, e as “Rotas do Brincar”, pequenos mapas criados com o contributo de centenas de crianças que mostram onde estão os melhores espaços de brincadeira da zona histórica, Arroios e Alcântara/Ajuda. Pais e crianças da Penha de França recordam ainda com saudade o “Brincapé – Território do Brincar”, que durante três anos fez de um terreno desocupado junto à Vila Cândida um espaço comunitário de brincadeira livre, baseado no conceito adventure playground.

Em todas estas iniciativas há um denominador comum que partilha a visão do pedagogo italiano Francesco Tonucci: oferecer o espaço público às crianças para elas brincarem em liberdade. Tal como defende o autor do livro “A Cidade das Crianças”, também o Brincapé tem insistido na necessidade de “mudar uma ideia instalada, que leva as pessoas a considerar a rua perigosa e a achar que o espaço público não é de todos”, diz Sandra Nacimento. “Pelo contrário, o espaço público é nosso, temos de o conquistar e contestar esta grande ocupação de veículos automóveis que nos tira espaço e qualidade e de vida”, concretiza. A esta visão de futuro, Rita Frade junta outra ambição para o Brincapé: “envolver mais comunidade e criar um modelo que possa ser replicado noutros bairros, porque não faz sentido termos escolas fechadas ao fim de semana, enquanto as crianças ficam em casa, sentadas no sofá ou a olhar para os ecrãs dos telemóveis”.

Imagem
Foto: Brincapé
Imagem
Foto: Catarina Lopes

Brinca Bairro

Crianças, pais empenhados e espírito comunitário é coisa que não falta no Bairro dos Actores, em Lisboa. Tudo junto resultou numa iniciativa cidadã – o Brinca Bairro – que quer trazer mais liberdade, convívio e animação a esta zona da capital, devolvendo a rua aos miúdos e às famílias, nem que seja só uma vez por mês e durante algumas horas. A ideia surgiu de forma quase espontânea por um grupo de vizinhos, que começou a trocar mensagens no WhatsApp e acabou com uma mãe, Marta Cerqueira, a bater à porta da Junta de Freguesia do Areeiro para apresentar o plano dos moradores. Nesse primeiro contacto, realizado em 2023, não se conseguiu avançar para uma proposta concreta, mas a ideia continuou a marinar, até que em julho do ano passado aconteceu a primeira edição, na rua Capitão Henrique Galvão. Apesar do trânsito ter sido cortado, alguns carros não poderem ser retirados, o que deixou um ligeiro sabor a pouco e muita vontade de repetir a iniciativa, para que as crianças pudessem ganhar ainda mais liberdade.

A solução foi uma mudança de local, para o fim da Rua José Acúrcio das Neves (uma espécie de beco onde não passam carros), que já recebeu as três edições seguintes, realizadas em setembro, outubro e dezembro. E então, sim, “as crianças puderam brincar de forma segura e livre, enquanto o convívio entre vizinhos foi animado”, recorda Sara Brandão, arquiteta e uma das mentoras da iniciativa. “Muitas das pessoas que ocasionalmente se cruzavam nas ruas, puderam, finalmente, conhecer-se e conversar. Por sua vez, as crianças, correm e brincam livremente no asfalto sem preconceitos, sentam-se no passeio, ocupam todos os cantos, escondem-se, testam os limites de afastamento aos pais, desenham no chão, saltam à corda, jogam à bola e correm”, acrescenta.

A moradora lembra que o brincar na rua faz parte de uma memória coletiva de outras gerações, agora reavivada com esta ação, e defende “mais restrições viárias” nas cidades, para que “aos poucos, as ruas se transformem em lugares plenos de estadia, e não apenas de circulação, como tem acontecido em cidades como Barcelona, com as Superquadras, e em Paris, com várias mudanças nas zonas pedestres em frente às escolas”. Um dos objetivos deste grupo de pais passa agora por fazer da iniciativa um verdadeiro encontro intergeracional que reúna crianças e famílias, mas também os idosos do bairro. A outra missão é tentar “contaminar” mais grupos de cidadãos, pois acreditam que iniciativas semelhantes noutros bairros da capital ajudam a sensibilizar a cidade (da população aos decisores) para a necessidade de criar mais espaços públicos e aumentar a segurança nas ruas. “Num contexto de políticas urbanas em que ainda se privilegia o carro como principal meio de deslocação e em que os lugares de estacionamento são praticamente intocáveis, estas iniciativas dão voz a uma comunidade que acredita que há outra cidade possível - em que as crianças se sentem seguras nas ruas do seu bairro, ocupam o espaço público livremente, deslocam-se de bicicleta sem receios”, diz Sara Brandão.

Embora haja sempre vizinhos que se queixam, sobretudo dos lugares de estacionamento a menos, os dinamizadores do Brinca Bairro acreditam que a maioria dos moradores do bairro (mesmo quem não tem filhos) aprova a iniciativa. Sinal disso é que alguns já começaram a perguntar pela próxima edição, prevista para o mês de abril, altura em que o Brinca Bairro retoma a periodicidade mensal, depois de uma fase de interregno. Garantido o regresso e um novo apoio da Junta de Freguesia do Areeiro, os moradores querem agora lançar um pedido à Câmara Municipal de Lisboa, para que retire em definitivo três lugares de estacionamento da Rua José Acúrcio das Neves. Pode parecer pouco, mas por cada carro a menos são mais uns palmos de espaço livre que as crianças passam a ter para brincar.

Imagem
Foto: Brinca Bairro
Imagem
Foto: Brinca Bairro

Ruas Abertas

“Pelo direito a brincar na rua”. A frase, estampada numa grande faixa, serviu de mote ao lançamento desta iniciativa promovida pela Junta de Freguesia de Arroios que quer fazer do espaço público um lugar privilegiado de encontro entre crianças e famílias. A ideia das “Ruas Abertas” é juntar a comunidade uma vez por mês, sempre ao fim de semana e num local diferente, encerrando-o temporariamente ao trânsito motorizado. Para isso, conta com os moradores, as associações e o comércio local para proporem as próximas ruas a organizarem a ação, embora prometa tratar de toda a burocracia e garantir a animação durante as cerca de quatro horas que dura cada evento.

Depois da Rua Maria ter sido a primeira, a 31 de janeiro, procura-se agora uma nova anfitriã, sendo que cada candidatura será avaliada a partir de vários critérios, como a segurança, a inclusão e a acessibilidade, bem como a viabilidade do local. Ou seja, serão privilegiadas as propostas que não obriguem a grandes alterações na circulação rodoviária de moradores e transportes públicos. O formulário de candidatura, as normas de funcionamento e outras informações úteis estão disponíveis no site da Junta de Freguesia.

“Andamos todos a dizer que as crianças passam o tempo a olhar para o telemóvel, mas iniciativas como estas mostram que, quando motivadas, elas também gostam de fazer outras coisas, como andar de bicicleta e de patins, fazer capoeira ou até experimentar o jogo da malha, apenas algumas das atividades que tivemos na estreia”, disse à s_cities João Jaime Pires, presidente da Junta de Freguesia de Arroios. E os pais agradecem, como Carla Ribeiro, mãe de uma menina de três anos, para quem “ações como estas ajudam a trazer as crianças para a rua, estimulando a brincadeira e a imaginação, ainda para mais em total segurança”. Além disso, “numa época em que os moradores nem sabem quem são os vizinhos, é um excelente pretexto para eles se conhecerem, conviverem e aproximarem, porque é isso que faz a força de uma comunidade”, acrescenta a moradora.

A ideia foi inspirada numa apropriação espontânea dos moradores que aconteceu no ano passado, quando a Rua do Forno do Tijolo esteve em obras, e a escolha da Rua Maria para estrear a iniciativa também não foi por acaso. Há cerca de cinco anos, um projeto do Orçamento Participativo da Câmara chegou a propor que parte daquela via fosse transformada num troço pedonal. Na altura, a proposta não teve pernas para andar, mas muitos moradores não esqueceram a ideia e este novo executivo da Junta também não, que, agora, aproveitou as Ruas Abertas para fazer uma espécie de teste. Para já, “uma vitória já foi conseguida, a de devolver algum espaço às crianças, ainda que durante algumas horas apenas, ao mesmo tempo que muitos pais reviveram os tempos em que podiam brincar ao ar livre, em segurança e liberdade”, conclui João Jaime Pires.

Imagem
Foto: Mário Rafael
Imagem
Foto: Mário Rafael
Publicado em 13 Fevereiro, 2026 - 08:30
Ativismo
Crianças
Inclusão
Lisboa
Pedonalização
Urbanismo e Sociedade